14 de mai de 2017

DENIRA ROZÁRIO - Palavra de Poeta / Portugal




PEDRO LUSO DE CARVALHO

A jornalista brasileira Denira Rozário escreveu o livro Palavra de Poeta – Portugal, no qual reuniu entrevistas que realizou, em Portugal, com 24 dos maiores poetas portugueses contemporâneos (17 homens e 7 mulheres), e que resultou na notável antologia de sua criação publicada pela Civilização Brasileira, em 1994. Enio Silveira, responsável pela editora, lamentou o fato de Otto Lara Rezende, um dos maiores cronistas da literatura brasileira, ter nos deixado sem ver o livro publicado. Otto Lara já havia lido e apreciado o livro anterior de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Brasil.
Mais adiante, Denira Rozário viria escrever Palavra de Poeta - Cabo Verde e Angola, livro no qual entrevista 12 poetas cabo-verdianos, entre eles, Aguinaldo Fonseca, João Melo e José Eduardo Agualusa, o último livro da trilogia, que visou a documentar o significado de ser poeta e de escrever poesia no Brasil, em Portugal e, depois, em Cabo Verde e Angola (Editora Bertrand Brasil).
Escreveu Antonio Houaiss, crítico, ensaísta, filólogo e integrante da Academia Brasileira de Letras, na nota introdutória da obra Palavra de Poeta – Portugal, em 26 de maio de 1993:
Este inquérito, valioso, é continuação necessária, do antecedente, feito junto a poetas brasileiros altamente representativos da nossa criatividade atual. Como contrapartida daquele, este abrange nomes muito atuais e atuantes do cenário poético português contemporâneo. Como era de esperar, dada a competência da inquiridora – versátil, informada, apaixonada da matéria, avessa `uniformização, descobridora das singularidades pessoais -, há aqui um quadro sincrônico soberbo: a mesma língua manejada segundo as variações temáticas que os tempos e este Tempo oferecem [...] preciosas amostragens poetadoras, poéticas e poetizantes [...]”.
Esse livro de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Portugal, teve um tratamento esmerado, a partir da capa, para a qual Felipe Taborda utilizou serigrafia da autora, pelas as anotações sobre a obra escritas pelo editor Ênio Silveira, culto e exigente, passando pela ‘Palavra de Antonio Houaiss’ e culminando com as entrevistas feitas com os maiores poetas de hoje e breve antologia de seus poemas.
Foram entrevistados por Denira Rozário os seguintes poetas: António Gedeão, Sofia de Melo Breyner Andersen, Eugênio de Andrade, Egito Gonçalves, Natália Correia, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, Ana Hatherly, Maria Alberta Menéres Melo e Castro, Albano Martins, E. M. de Melo e Castro , António Asório, Pedro Tamen, Fiama Hasse Pais Brandão, Casimiro Brito, Al Berto, Nuno Judice, Rosa Alice Branco, José Jorge Letria, Luiz Miguel Nava, Fernando Pinto Amaral, Adília Lopes e Paulo Teixeira.
Escolhi alguns trechos da entrevista que Denira Rozário fez com Fernando Pinto Amaral (1960), escolha essa que fiz aleatoriamente: “Crítico notável, que se revela notável poeta [...], fez o curso inverso, primeiro o crítico depois o poeta, escolheu o caminho mais difícil, menos comum e de maior risco. Risco ocorreu também ao abandonar, no 4º ano, o curso de medicina, carreira considerada estável para estudar literatura. A vocação era poética, a poesia venceu [...] A vontade de escrever mais regularmente surgiu a partir de 17 anos, durante uma paixão – confessa uma tendência para amores impossíveis [...] Sobre ser poeta, cita Milan Kundera, “só o autêntico poeta sabe o que é o imenso desejo de deixar essa casa de espelhos onde reina um silêncio ensurdecedor”.
.Em outro trecho Rozário pergunta Fernando Pinto Amaral se seria difícil falar sobre a atual poesia portuguesa, e o poeta respondeu-lhe: “Por isso remeto para o meu ensaio o Mosaico Fluido – Modernidade e Pós-Modernidade na Poesia Portuguesa mais Recente, saiu pela Editora Assírio & Alvim”.
A seguir Rozário pede ao poeta, crítico e professor que diga quais são os bons poetas portugueses e brasileiros: “Quanto aos bons poetas portugueses que leio e que aprecio, são tantos que não vale a pena enumerá-los – teria medo de esquecer alguns. Em relação aos brasileiros, gosto de ler, por exemplo, Mário de Andrade, Jorge Lima, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes. A poesia mais recente, é pena, conheço-a muito mal, pois chegam poucos livros”.
À pergunta da entrevistadora sobre sua condição de leitor, se é organizado, respondeu-lhe que “Como leitor, sou um tanto anárquico, não leio muitos livros nem gosto de devorá-los. Estou lendo poemas do sueco Tomas Transtromer, ensaios de Walter Benjamin e um livro de contos de Paul Bowles.”
E sobre exigir, a poesia, uma boa formação literária, disse que:
A questão é complexa, visto que, a meu ver, a inspiração poética em si mesma não exige qualquer formação. Sendo inata em algumas pessoas, ela brota espontaneamente e às vezes desde cedo, por exemplo, o caso de Rimbaud. Todavia, para que os resultados sejam bons, torna-se relativamente necessário uma consciência crítica que só aparece quando há certa bagagem cultural. Por isso, concordo que é exigível alguma formação literária, mais ou menos sólida ou fluida.”
Dentre os três poemas de Fernando J. B. Pinto do Amaral [nasceu em Lisboa, no dia 12 de maio de 1960], que integram a entrevista de Rozário, transcrevo uma delas:

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.
muito longe, uma estrela.
Cruel foi sempre o seu fulgor:

sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.
Era esse o meu reino,
e era talvez essa
a voz da própria lua.



Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
- nenhum gesto do céu ou da terra.

Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.



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10 de abr de 2017

MARIO VARGAS LLOSA – Quem Matou Palomino Molero?




PEDRO LUSO DE CARVALHO


MARIO VARGAS LLOSA escreveu o romance Quem Matou Palomino Molero? em 1986. Nesse mesmo ano o livro foi publicado no Brasil pela editora Francisco Alves, com a tradução de Remy Gorga Filho. Bella Jozef disse sobre essa obra: “O narrador traça o quadro deprimente de uma realidade com o problema da injustiça e estratificação das classes sociais que divide e separa também as etnias, alternando a geografia física e psicológica”.
A história contada por Vargas Llosa se passa nos anos cinquenta, tendo por personagens centrais os policiais: Tenente Silva e Lituma. Lituma encontrou o corpo de Palomino Molero enforcado na velha algarobeira, com sinais em seu corpo de atos de tortura, como é narrado no início da obra:
Antes e depois de matá-lo haviam cortado seu corpo em tiras com uma crueldade sem limites: tinha o nariz e a boca cortados, coágulos de sangue ressequido, equimoses, queimaduras de cigarro, e, como se não fosse bastante, Lituma compreendeu que também haviam tentado capá-lo, porque os ovos pendiam até a entreperna. Estava descalço, despido da cintura para baixo, com uma camiseta em pedaços. Era jovem, magro, moreninho e ossudo (...). – Quem fez isto – balbuciou, contendo a náusea”.
O crime, que foi cometido no pequeno povoado do Peru, Talara, onde se encontrava instalada a International Petroleum Company, com seus escritórios e as casas dos gringos, e a Base Aérea de Piura, deixou o guarda Lituma abatido por pressentir que o assassinato de Palomino Molero poderia representar uma ameaça para ele, caso algum peixe grande da Base Aérea estivesse envolvido no crime, como disse a um interlocutor seu: “- Mas não posso tirar o magrinho da cabeça. Tenho pesadelos, parece que estão arrancando os meus ovos como fizeram com ele. Coitadinho: morreu com ele pelos joelhos e achatados como ovos fritos”.
A partir daí o Tenente Silva e o seu subordinado Lituma passaram à fase de investigação da autoria do crime, andando praticamente no escuro à busca de suspeitos. Aos poucos começaram a aparecer aqui e ali alguns elementos que resultavam em indícios, até que passaram a suspeitar do Comandante da Base Aérea, o Coronel Mindreau. Este recebeu os policiais em seu gabinete, pela segunda vez: “- Em que posso servi-los? – murmurou com uma urbanidade que sua expressão glacial contradizia. – Aqui estamos outra vez pelo assassinato de Palomino Molero – respondeu o Tenente, com todo respeito. – Para solicitar sua colaboração, meu Coronel”.
A investigação prosseguia com seus percalços e temores, principalmente por parte do guarda Lituma. Passaram então a dar maior atenção ao suspeito principal, o Coronel Mindreau, depois que receberam uma denúncia anônima, acusando-o da autoria do crime. E, para surpresa dos policiais, estes descobriram que o bilhete com a denúncia foi escrito pela própria filha do Coronel, Alícia Mindreau, namorada de Palomino Molero, com quem fugira para casar-se. O casamento só não se consumou pela ação do Coronel Mindreau.
A investigação prosseguia tensa à vista dos riscos para o Tenente Silva e para o guarda Lituma: o suspeito era pessoa influente e capaz de atos violentos. O dia-a-dia dos policiais somente era amenizado com a presença Dona Adriana, casada com o pescador Moisés, homem bem mais velho que ela. O Tenente Silva não escondia que sentia uma forte atração física por essa mulher gorda e bem mais velha que ele. Lituma não compreendia esse sentimento; não entendia por que ela lhe dava tanto tesão: “- Se continuar olhando assim para Dona Adriana, seus olhos vão gastar, meu Tenente” – disse-lhe Lituma.
Fora esses momentos de descontração na pensão de Dona Adriana, o resto do tempo os dois policiais passavam envolvidos com a investigação. O Tenente Silva esforçava-se para descobrir o assassino de Palomino Molero, não que estivesse obcecado para que fosse feita a justiça, mas sim pela curiosidade que o perseguia; queria saber a todo custo quem matou Palomino Molero. O guarda Lituma admirava o estilo do Tenente Silva, que sabia como arrancar os segredos das pessoas. Quando foi procurado por Alícia Mindreau, numa tarde em que espiava com um binóculo Dona Adriana banhar-se num lago, essa qualidade foi posta à prova.
O tenente Silva nesse dia foi surpreendido pela filha do Coronel Mindreau quando se deliciava com a nudez de Dona Adriana. Lituma ouviu o Tenente dizer a Alícia: “- É perigoso surpreender assim uma autoridade em seu trabalho, senhorita. E se, de ricochete, pega um tiro? – Em seu trabalho? – desafiou-o ela, com uma gargalhada sarcástica. – Espiar mulheres que tomam banho é seu trabalho?”.
Nesse dia, a investigação dos dois policiais chegou ao paroxismo quando Alícia Mindreau acusou seu pai, o Coronel Mindreau, de ser o responsável pela morte de Palomino Monlero. No Posto da Guarda Civil, Alícia contou ao Tenente Silva a conversa que tivera com seu pai: ele a procurou meio louco de susto e arrependimento: “- Sou um assassino Alicinha. Torturei e matei o recruta com quem você fugiu”.
A partir dessa altura da investigação tudo indicava que nada mais restava para ser esclarecido, o que não significava que haveria condenação do Coronel Mindreau, depois da conclusão do inquérito policial, pelo Tenente Silva. Não ficaria a dúvida sobre a autoria do crime, mas ainda não estavam esclarecidas as circunstâncias de tal ato, e, tampouco, não se poderia prever o que viria ocorrer com o assassino de Palomino Molero, O Coronel Mindreau. Alícia teria falado a verdade sobre as relações sexuais que dizia ser obrigada a manter com seu pai, o Coronel Mindreau?
Por outro lado, o Coronel, pai de Alícia, teria falado a verdade quando negou ter forçado a filha a manter relações sexuais com ele por muitos anos? As afirmações que fizera eram verdadeiras? O certo é que, na praia onde se encontravam, o Coronel Mindreau confessou ter matado Palomino Molero. E que, depois da confissão, pediu que os policiais o deixassem ali. E que, após terem se afastado, ouviram um estampido que indicava tratar-se de um tiro.
O leitor verá que a história de Vargas Llosa não tem como único clímax a descoberta do assassino de Palomino Molero; o ápice da narrativa vem depois da confissão do Coronel Mindreau de ser ele o assassino. Portanto, o desfecho da história não está unicamente na descoberta da autoria do crime, mas também com o que ocorre com o assassino de Palomino Molero e com Alícia, filha do Coronel.
Espero não ter tirado a curiosidade do leitor sobre o desenlace completo dessa história, por ter revelado o nome do assassino, já que restou ser contado o que aconteceu com o Coronel e com sua filha Alícia. O certo, no entanto, é que Quem Matou Palomino Molero? está colocado entre os melhores romances de Mario Vargas Llosa, que a cada livro seu vem confirmar ser ele um dos escritores mais importante da literatura sul-americana.




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7 de mar de 2017

[Poesia] LUIZ DE MIRANDA – Breu das Almas




- PEDRO LUSO DE CARVALHO


LUIZ DE MIRANDA não é apenas um dos poetas gaúchos mais importantes; ele está colocado entre os melhores poetas modernos brasileiros e da América Latina.
Alguns dos poetas e críticos brasileiros mais representativos falam sobre a poesia de Luiz de Miranda (in Antologia de Poemas/Luiz de Miranda. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987), como veremos a seguir:
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: “Poesia aberta, comunicante, como um sopro de vida e insatisfação”.
FERREIRA GULLAR: “No caso de um poeta como Luiz de Miranda, as soluções formais resultam da necessidade de formular o vivido e sentido, emoções e ideias que são expressão de um compromisso claro com seu país e o seu tempo. A poesia de Luiz de Miranda fala de nós todos”.
RAUL BOPP: “A poesia de Luiz de Miranda revela a sensibilidade do verdadeiro e grande poeta. É uma contribuição definitiva à literatura brasileira”.
GUILHERMINO CÉSAR: “De qualquer modo, penso que Memorial assinala uma vertente; reúne-se ao que de melhor existe no Brasil”.
NELSON WERNECK SODRÉ: “Luiz de Miranda sabe que a solidão é provisória e decorre de derrota, exílio, distância, saudade. Escreveu longe e perto. Sua poesia se junta a de alguns, uns poucos, que souberam ver o que viu, sentir o que ele sentiu. A época, amarga e opaca e escura, é atravessada por essa poesia como um relâmpago. Sua luz denuncia auroras. Do provisório, entrevemos o definitivo”.
JOSÉ ÉDIL DE LIMA ALVES: “Poeta comprometido com a realidade do seu país e de seu continente, ele trilha os caminhos percorridos por um Pablo Neruda, um Atahualpa Yupanqui, um Ferreira Gullar, com seu canto enérgico de protesto”.
O poema Breu das Almas, de Luiz de Miranda, integra o livro Trilogia da Casa de Deus, Prêmio Nacional de Poesia 2001, da Academia Brasileira de Letras (In Trilogia da Casa de Deus./Luiz de Miranda. Porto Alegre: Sulina, 2002, p. 143-144); segue o poema Breu das Almas:


BREU DAS ALMAS
- LUIZ DE MIRANDA
a Vanja Orico


Em mim, o silêncio do mar,
pulsando a remota invernia,
somente descem a ampulheta dos dias,
frêmitos e de prata impura,
na vidraça onde morre o vento.

Por milhares de anos foi assim,
um balde de ternura ao fim
da borrasca, da solidão e do medo.
Em mim, morrem todos os segredos,
tombam as tempestades
cobertas de esquecimento.
Puída e cheia de pó,
a alma canta o que fui de menino
a se perder para sempre
no trevoso breu dos anos,
mas ainda à noite me alucino
na contemplação dos velhos retratos,
fechados a sete chaves no meu quarto.

Homero e Dante me consolam
no plenilúnio do paraíso.
A morte vem sem aviso,
tecendo os noturnos do adeus.

Ninguém me ama,
e tarda, tarda muito, amanhecer,
mas viver, como disse antes,
é ir com todos
sem nunca se perder.

Vou pelas vielas da minha pátria,
tão esquecida, miserável e humilhada
nos gabinetes do poder.
Pátria pobrinha da minha alma,
te canto sempre em tom maior.
Entre lendas e beijos,
te coloco ao pé dos santos,
para que envolvida pelos seus mantos
permaneças viva e intocada.
Pátria minha, sempre amada.

Em mim está bem desperto
o pólen, a pétala, a pérola
que descem comigo ao inferno,
e voltamos lúcidos à vida,
do breu das almas e do inverno.
Não haverá mais partida ou despedida.




Porto Alegre,
1º de setembro de 2000.




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28 de jan de 2017

Jorge Luis Borges visto por André Maurois





-- PEDRO LUSO DE CARVALHO

O último livro de André Maurois foi De Aragon a Montherlant. Estava escrito quando ele morreu, em outubro de 1967. Foi editado em Paris, após sua morte. A obra, que teve grande êxito nas livrarias, completa a trilogia dos dois primeiros volumes De Proust a Camus e De Gide a Sartre. A trilogia foi publicada no Brasil pela editora Nova Fronteira. De Aragon a Montherlant foi traduzido por Paulo Hecker Filho. Nesse terceiro volume, André Maurois estruturou o livro com ensaios curtos abrangendo temas variados, não mais se limitando a escrever sobre vida e obra dos maiores escritores franceses do século XX, como fizera nos dois primeiros tomos.
Nesse terceiro volume, André Maurois publicou ensaios da melhor qualidade sobre importantes escritores – não apenas franceses - , dentre eles, Borges, com o título Jorge Luis Borges - Labirintos. Aí, Maurois diz que Borges é um grande escritor, que se restringiu a pequenos ensaios. E acrescenta: "esses ensaios bastam para afirmá-lo “grande”; justificando o por quê dessa qualidade: “pelo brilho duma inteligência impressionante, a riqueza de invenção e o estilo cerrado, quase matemático”.
Prossegue Maurois:
Argentino de nascença e temperamento, mas nutrido de literatura universal. Borges não tem pátria espiritual. Cria, fora do espaço e do tempo, mundos imaginários e simbólicos. É um sinal da sua importância que só possa evocar a seu propósito obras estranhas e belas. Aparenta-se com Kafka, Poe, às vezes Wells, sempre Valéry pela brusca projeção de seus paradoxos dentro do que chamaram 'sua metafísica privada.
Adiante, André Maurois diz que são inumeráveis e inesperadas as fontes de Borges. E mais:
Borges leu tudo, e especialmente o que ninguém lê mais: os cabalistas, os gregos alexandrinos, os filósofos da Idade Média. Sua erudição não é profunda; ele não lhe pede senão clarões e idéias; mas é vasta. Um exemplo: Pascal escreveu: A natureza é uma esfera infinita em que o centro está em toda parte, a circunferência em nenhuma. Borges parte à caça dessa metáfora através dos séculos. Acha em Giordano Bruno (1584): Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro, ou que o centro do universo está em toda parte e sua circunferência em nenhuma parte. Mas Giordano Bruno podia ter lido num teólogo francês do século XII, Alain de Lille, uma fórmula extraída do Corpus Hermeticum (século III): Deus é uma esfera inteligível cujo centro está em toda parte a circunferência em nenhuma parte. Tais pesquisas, levadas a efeito entre os chineses como entre os árabes ou os egípcios, encantam Borges e lhe oferecem seguidos assuntos de contos”.
Muitos dos mestres dos quais Borges sofreu alguma influência em são ingleses. Nutre profunda admiração por Wells, que escreveu um romance que representa simbolicamente traços inerentes a todos os destinos humanos. Diz, André Maurois:
. Cada obra grande e duradoura deve ser ambígua, diz Borges, pois é um espelho que faz conhecer os traços do leitor, embora o autor deva parecer ignorar o significado da sua obra – o que constitui uma descrição excelente da arte do próprio Borges. E é Borges quem diz: Deus não deve fazer teologia; o escritor não deve anular com raciocínios humanos a fé que a arte exige de nós.
Borges, como a Wells admira Poe e Chesterton, prossegue André Maurois:
Poe escreveu contos perfeitos de horror fantástico e inventou a narração policial, mas nunca combinou os dois gêneros. Se Chesterton soube se defender de Poe ou Kafka havia na matéria de que seu eu estava feito algo que tendia ao pesadelo. Kafka, a seu turno é um precursor direto de Borges. Castelo podia pertencer a Borges, embora esse dele tivesse feito um conto de dez páginas, tanto por altaneira preguiça quanto pelo cuidado da perfeição”. Quando aos precursores de Kafka, a erudição de Borges – ressalta Maurois - se compraz em achá-los em Zenão de Eléia, em Kierkegaard, em Robert Browning. “Em cada um desses autores há algo de Kafka, mas se esse não tivesse escrito, ninguém se aperceberia disso. De onde este paradoxo bem borgesiano? Cada escritor cria seus precursores.
André Maurois faz referência a ao inglês Dunne como sendo outro dos escritores que inspiraram Borges:
Donne escreveu um curioso livro sobre o Tempo, onde sustenta que o passado, o presente e o futuro existem simultaneamente, como o provam nossos sonhos, (Schopenhauer, nota Borges, já escreveu que a vida e os sonhos são páginas dum mesmo livro: lê-las em ordem é viver, folheá-las é sonhar. Na morte reencontraremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos livremente como num sonho. Deus, nossos amigos e Shakespeare colaborarão conosco. Nada mais agrada a Borges que jogar assim com o espírito, o sonho, o espaço e o tempo.
È mais extenso esse ensaio de André Maurois sobre a obra de Jorge Luis Borges. Do ensaio, recolhi as partes mais interessantes, acredito. Mas, antes do ponto final, acho importante abordar a forma de Borges, que segundo Maurois lembra a de Swift:
A mesma gravidade no absurdo, a mesma precisão no detalhe. Para expor uma descoberta impossível, empregará o tom do erudito minucioso e pedante, mesclará escritos imaginários com fontes autorizadas e reais. Antes do que escrever um livro inteiro, o que o entediaria, analisa um livro que nunca existiu. “Porque desenvolver em quinhentas - páginas, pergunta Borges -, uma ideia cuja perfeita exposição oral demoraria alguns minutos?”
André Maurois agora dá realce a outros contos de Jorge Luis Borges, dizendo:
São parábolas misteriosas e nunca explícitas; outros ainda, relatos policiais à maneira de Chesterton. A trama persiste toda intelectual. O criminoso emprega o seu conhecimento de detetive. É Dupin contra Dupin, ou Maigret contra Maigret . Uma das 'ficções' de Borges é a insaciável procura dum ser através dos reflexos, apenas perceptíveis, que deixou em outras pessoas. Ou então, por ter o condenado notado que as previsões nunca coincidem com as realidades, imagina as circunstâncias da sua morte. Transformadas assim em previsões, deixarão de ser realidades.
Maurois diz, no que respeita às invenções de Borges, que essas invenções de Borges são mais extraordinárias que as de Poe, escritas num estilo hábil e puro que aliás cumpre relacionar com o de Poe, “que gerou Budelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Borges".
Já no final do seu ensaio, Maurois lembra do parentesco do estilo de Borges com o de Valéry, pelo rigor; às vezes, com Flaubert, pelo acúmulo de passados imperfeitos; com Saint-John Perse, pela estranheza de adjetivos. Mas, não deixa de ressalvar que é altamente original o estilo de Borges, o mesmo ocorrendo com seu pensamento. Termina o ensaio com o que diz Borges sobre os metafísicos de Tlön: “Não buscam a verdade, nem mesmo a verossimilhança. Pensam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica”. O que define bem a grandeza e a arte de Borges – conclui Maurois.



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18 de jan de 2017

[conto] JORGE LUIS BORGES – O Punhal


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PEDRO LUSO DE CARVALHO

JORGE LUIS BORGES (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges) nasceu em Buenos Aires, Argentina, a 24 de agosto de 1899 e faleceu em Genebra, Suíça, em 14 de junho de 1986, aos 87 anos incompletos.
Borges escreveu uma extensa obra, abrangendo contos, não ficção e antologias. “Seus pequenos ensaios – diz André Maurois –, bastam para afirmá-lo grande, pelo brilho duma inteligência impressionante, a riqueza de invenção e o estilo cerrado, quase matemático”.
Diz mais, Maurois: “Aparenta-se com Kafka, Poe, às vezes com Wells, sempre Valéry pela brusca projeção de seus paradoxos dentro do que chamaram sua metafísica privada”.
María Esther Vázquez, biógrafa de Borges, diz: “A partir de 1933 Borges encontrou, quase sem perceber, seu verdadeiro destino na literatura: o conto, gênero que lhe daria fama mundial”.
No final dos anos 1950 até a sua morte – 1986 –, Borges fez muitas palestras e voltou a escrever poemas, já que sua deficiência visual dificultava sua escrita em prosa, fábula, ensaio e mitologia.
Segue o conto O Punhal, de Luis Carlos Borges (in Nova Antologia Pessoal/Jorge Luis Borges; tradução Davi Arrigucci Jr., Heloisa Jahn, Josely Vianna Baptista. – 1ª ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 2013, p. 75-76):


        O PUNHAL
                 – JORGE LUIS BORGES
A Margarita Bunge


Numa gaveta há um punhal.
Foi forjado em Toledo, em fins do século passado. Luis Melián Lafinur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; Evaristo Carriego uma vez segurou-o na mão.
Todos os que o veem precisam brincar um pouco com ele; percebe-se que há muito o procuravam; a mão se apressa em apertar a empunhadura que a espera; a lâmina obediente e poderosa participa com precisão dos movimentos.
Outra coisa quer o punhal.
Ele é mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e lhe deram forma para um uso muito preciso; é, de algum modo eterno, o punhal que esta noite matou um homem Tacuarembó e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.
Numa gaveta da escrivaninha, entre blocos e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o controla porque o metal se anima, o metal que pressente em cada contato o homicida para quem o criaram os homens.
Às vezes me dá pena. Tanta dureza, tanta fé, tão serena ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.
        

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REFERÊNCIAS:
MAUROIS, André. De Aragon a Montherlant, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1967, p. 99.
VÁZQUEZ, María Esther. Jorge Luis Borges – Esplendor e derrota – Uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 1966, p. 135.



29 de dez de 2016

JORGE LUIS BORGES – O credo de um poeta




PEDRO LUSO DE CARVALHO

JORGE LUIS BORGES nasceu a 24 de agosto de 1899, em Buenos Aires, Argentina. Foi fabulista, poeta, contista, ensaísta e mitólogo. Educado num lar bilíngue, aprendeu a escrever em inglês antes de sua língua pátria. Na casa em que morava com a família, o menino Jorge passava boa parte de seu tempo na ampla biblioteca de seu pai.
Já adulto Borges sofreu a influência de poetas espanhóis da vanguarda radical. Seu nome passou a ter visibilidade nos anos 1920, como poeta e ensaísta. As obras em prosa passaram a ser admiradas nos anos de 1930.
Do fim dos anos 1950 até a sua morte – 14 de junho de 1986, em Genebra, Suíça - Borges fez muitas palestras e voltou a escrever poemas, já que sua deficiência visual dificultava sua escrita em prosa.
Segue um trecho de O credo de um poeta, de Jorge Luis Borges (In Borges, Jorge Luis. Esse ofício do verso. 2ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 103):

O CREDO DE UM POETA (fragmento)
JORGE LUIS BORGES


Meu propósito era falar sobre o credo do poeta, mas, olhando para mim, descobri que tenho apenas um tipo claudicante de credo. Esse credo talvez possa ser útil para mim, mas dificilmente é para os outros.
Aliás, acho que todas as teorias poéticas são meras ferramentas para escrever um poema. Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas. Embora no final eu diga sobre os meus gostos e desgostos no tocante à escrita da poesia, acho que vou começar com algumas memórias pessoais, não só de escritor, mas também de leitor.
Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita; mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.

                   
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15 de dez de 2016

JORGE LUIS BORGES – Esse ofício do verso




PEDRO LUSO DE CARVALHO


O livro de Jorge Luis Borges, Esse ofício do verso, organizado por Calin-Andrei Mihailescu e traduzido por José Marcos Macedo, foi lançado pela Companhia Das Letras, em 2007 (em 2ª reimpressão). Esse ofício do verso está dividido em 6 partes, quais sejam: 1) O enigma da poesia, 2) A metáfora, 3) O narrar uma história, 4) Música da palavra e tradução, 5) Pensamento e poesia, e 6) O credo de um poeta. No 1º capítulo dessa obra, O enigma da poesia, diz Borges [trecho]:
A verdade é que não tenho revelações a oferecer. Passei minha vida lendo, analisando, escrevendo (ou treinando minha mão na escrita) e desfrutando. “Sorvendo” a poesia, cheguei a uma derradeira conclusão sobre ela. De fato, toda vez que me deparo com uma página em branco, sinto que tenho que redescobrir a literatura para mim mesmo. Mas o passado não é de valia alguma para mim. Assim, como disse, tenho apenas minhas perplexidades a lhes oferecer. Estou perto dos setenta. Dediquei a maior parte de minha vida à literatura, e só posso lhes oferecer dúvidas”.
Sobre a Metáfora, 2º capítulo, escreve Borges [trecho do segundo capítulo]:
O poeta argentino Langones, lá pelos idos de 1909, escreveu pensar que os poetas estavam usando sempre as mesmas metáforas e que tentaria treinar a mão descobrindo novas metáforas para a lua. Disse também, no prefácio a um livro chamado 'Lunario sentimental', que cada palavra é uma metáfora morta. Essa declaração, claro, é uma metáfora. Mas acho que todos sentimos a diferença entre metáforas mortas e vivas. Se pegarmos qualquer bom dicionário etmológico (estou pensando em meu velho amigo ignorado, Dr. Skeat) e se procurarmos uma palavra qualquer, na certa encontraremos uma metáfora enfurnada em alguma parte”.
No capítulo 3º da obra, Esse ofício do verso, qual seja, O narrar uma história, escolhi os três trechos que seguem:
Ao consideramos o romance e a épica somos tentados a pensar que a diferença principal está na diferença entre verso e prosa, entre cantar algo e enunciar algo. Mas acho que há uma diferença maior. A diferença está no fato de que o importante na épica é o herói – o homem que é um modelo para todos os homens. Ao passo que a essência da maioria dos romances, como salientou Mencken, reside na aniquilação de um homem, na degeneração do caráter".
Prossegue Borges, em O narrar de uma história:
Isso nos leva a outra questão: O que pensamos da vitória e da derrota? Quando se fala hoje em dia num final feliz, as pessoas consideram-no um simples concessão ao público ou uma estratégia comercial; consideram-no artificial. Mas por séculos os homens puderam acreditar sinceramente na felicidade e na vitória, embora percebessem a dignidade intrínseca da derrota. Por exemplo, quando se escrevia sobre o Velocino de Ouro (uma das velhas histórias da humanidade), leitores e ouvintes sabiam desde o início que o tesouro seria encontrado no final”.
Ainda sobre o capítulo O narrar de uma história:
Bem, hoje em dia, se alguém empreende uma aventura, sabemos que terminará em fracasso. Quando lemos – penso num exemplo que admiro – The Aspern papers, sabemos que os papéis jamais serão encontrados. Quando lemos O Castelo de Franz Kafka, sabemos que o homem jamais ingressará no castelo. Ou seja, não podemos realmente acreditar em felicidade e sucesso. E isso talvez seja uma das pobrezas de nosso tempo. Suponho que Kafka tenha sentido algo bem parecido quando quis que seus livros fossem destruídos: queria na verdade escrever um livro feliz e triunfante, e sentiu que não podia fazê-lo. Ele poderia tê-lo feito, é claro, mas as pessoas teriam percebido que ele não estava dizendo a verdade. Não a verdade dos fatos, mas a verdade dos seus sonhos”.
Segue um trecho do 4º capítulo, Música da palavra e tradução, dessa obra de Borges:
Portanto, acho que a idéia de uma tradução literal proveio da tradução da Bíblia. Esse é apenas um palpite (imagino que haja aqui muitos especialistas que podem me corrigir se eu estiver errado), mas acho ser altamente provável. Quando as traduções bastante idôneas da Bíblia foram empreendidas, começou-se a sentir que havia uma beleza nos modos alheios de expressão. Agora todos têm muito gosto por traduções literais, porque uma tradução literal sempre nos dá aquelas pequenas sacudidelas de surpresa pelas quais esperamos. De fato, pode-se dizer que não se precisa de original algum. Dia virá, talvez, em que a tradução será considerada como algo em si mesmo. Podemos pensar nos Sonnets from the Portuguese de Elizabeth Barrett Browning”.
Vejamos um trecho do que Borges escreve no 5º capítulo do livro Esse ofício do verso, intitulado Pensamento e poesia:
Há versos, é claro, que são belos e sem sentido. Porém ainda assim têm um sentido – não para a razão, mas para a imaginação. Permitam-me tomar um exemplo bem simples: two red roses across the moon (Duas rosa vermelhas atravessadas na lua). Aqui talvez se diga que o significado é a imagem conferida pelas palavras; mas para mim, pelo menos, não há imagem definida. Há um prazer nas palavras e, claro, na cadência das palavras, na música das palavras. E tomemos outro exemplo de William Moris: Therefore, said fair Yoland of the flowers (fair Yoland é um bruxa), This in the tune of Seven Towers ['Portanto', disse a bela Yoland das flores, 'esta é a música das Sete Torres']. Estes versos foram destacados do contexto, e ainda assim acho que subsistem”.
.Em trecho do 6º capítulo do livro Esse ofício do verso, qual seja, O credo de um poeta, assim se expressa Borges:
Meu propósito era falar sobre o credo do poeta, mas, olhando para mim, descobri que tenho apenas um tipo claudicante de credo. Esse credo talvez possa ser útil para mim, mas dificilmente é para os outros. Aliás, acho que todas as teorias práticas são meras ferramentas para escrever um poema. Suponho que haja tantos credos, tantas religiões, quantos são os poetas. Embora no final eu diga algo sobre os meus gostos e desgostos no tocante à escrita da poesia, acho que vou começar com algumas memórias pessoais, não só de escritor, mas também de leitor. Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita; mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta – porém não escreve o que gostaria de escrever, mas sim o que é capaz de escrever”.


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