10 de set de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A Noite




     A NOITE
       – PEDRO LUSO DE CARVALHO


A janela do quarto,
na semiobscuridade,
bate repetidamente.
É o vento
trazendo lembranças
e fantasmas
das lonjuras do tempo.
Vento forte
quebrando a solidão
do bronze das estátuas,
esquecidas
nas praças desertas.
A cidade dorme
com suas feridas expostas.



*   *   *




17 de ago de 2017

LIMA BARRETO – Talento e Rebeldia



      
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

LIMA BARRETO é, sem dúvida, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Nasceu no dia 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, onde morreu, em 1 de novembro de 1922, com 41 anos. Iniciou os seus estudos aos seis anos, no Liceu Popular Niteroiense; aos onze anos concluiu os preparatórios no Colégio Pedro II; passou a estudar na Escola Politécnica; viu-se obrigado a interromper o curso, deixando, pois, de receber o diploma de bacharel, para ajudar no sustento da família, por ser ele o filho mais velho, depois que seu pai foi acometido de grave doença mental. Para atingir esse objetivo, Afonso Henriques de Lima Barreto prestou concurso público para a Secretaria da Guerra; aprovado, foi nomeado para o cargo de terceiro-oficial.
Uma vez efetivado para o cargo, na Secretaria da Guerra, Lima Barreto passou a colaborar em pequenos jornais de estudantes. Aí começaria a sua carreira de escritor. Nessa época, encontrava-se indeciso quanto à escolha do gênero literário, se ensaio ou ficção. Depois de ter desistido de um projeto de escrever uma história da escravidão no Brasil, decidiu que seria romancista, e como tal se distinguiria pelo talento e honestidade, colocados em suas obras: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), Numa e a Ninfa (1915), Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Histórias e Sonhos (1920), Os Bruzundangas (1922), Bagatelas (1923), entre outros; estas duas últimas obras foram publicadas depois da morte do autor.
Essa vigorosa obra passou a ser recebida com respeito pela crítica literária. Manoel Bandeira escreveu sobre Lima Barreto: “Incorreto de linguagem, mas penetrante na observação dos costumes e da paisagem urbana e suburbana de sua cidade natal”. Depois das publicações póstumas de Os Bruzundangas e Bagatelas, o romancista caiu no esquecimento de forma inexplicável. Em 1930, um pequeno grupo de amigos tenta chamar a atenção para a obra do escritor. A imprensa acompanhou o movimento; Agrippino Grieco escreve o primeiro artigo para reabilitar o escritor, tratando-o como “o maior e o mais brasileiro de nossos romancistas”.
Os movimentos para a reabilitação do escritor merece um texto à parte, que poderá ser abordado neste espaço, em outra ocasião. Por enquanto, ficaremos com este texto, falando da vida e da obra de Lima Barreto, que, ainda jovem, lia na Biblioteca Nacional e na Escola Politécnica, onde estudava os volumes de Descartes, Condillac, Condorcet, Kant, Spencer e Comte. Em especial, o livro que mais o influenciou nessa fase de aprendizado: “Discurso do Método”, de Descartes.
Sobre o seu primeiro livro, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pretendeu, simplesmente, diz o próprio romancista, mostrar que “um rapaz nas condições de Isaías, com todas as disposições, pode falhar, não em virtude de suas qualidades intrínsecas, mas batido, esmagado, prensado pelo preconceito”. E, diz mais, na mesma carta: “Não sei como me saí da empresa. Se lá pus certas figuras e o jornal, foi para escandalizar e provocar a atenção para a minha brochura. Não sei se o processo é decente, mas foi aquele que me surgiu para lutar contra a indiferença, a má vontade dos nossos mandarins literários”.
O fato de ser ele mulato, neto de escravos, filho de uma escrava e de um português, levou-o a sentir o peso do preconceito racial, sentimento esse que viria contribuir para que ele se tornasse um escritor profundo, bem diferente dos demais escritores de sua época, na sua maioria. Naqule tempo, o preconceito que existia no Brasil era muito mais intenso que nos dias atuais, sem dúvida. Mas mesmo assim Veiga Miranda publicou um artigo em São Paulo sobre Recordações do Escrivão Isaías Caminha, e discordou do escritor: “Estamos muito longe dos Estados Unidos. Poder-se-ia dizer antes que uma dose de mulatice até influi favoravelmente na carreira do indivíduo”.
Lima Barreto não deixou de responder a Veiga Miranda, e o fez de forma clara e irrefutável: “Quanto ao preconceito de cor, diz o senhor que ele não existe entre nós. Houve sempre uma quizília que se ia fazendo preconceito quando o Senhor Rio Branco tratou de “eleganciar” o Brasil. Isto não se prova, sei bem; mas se não tenho provas judiciais, tenho muito por onde concluir. Porque aí, em São Paulo, e em Campinas também, há sociedades de homens de cor? Hão de ter surgido devido a algum impulso do meio, tanto que no resto do Brasil não as há”. Quanto a não haver sociedades de gente de cor fora de São Paulo e de Campinas, como diz Lima, este não poderia dizer o mesmo se tivesse vivido em torno dos anos 50 em diante, quando essas sociedades eram, e talvez ainda sejam, encontradas em outros Estados da União, como, por exemplo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
Francisco de Assis Barbosa posiciona-se quanto a influência da cor na obra do escritor: “É claro que a condição de mulato – e mulato incompreendido e até certo ponto perseguido – influenciou a obra de Lima Barreto. Mas isso não é tudo. Há nela muito mais do que uma reação meramente instintiva de um profundo sentimento humano e de uma admirável compreensão do fenômeno social.”
 Luiz Ricardo de Leitão, autor de Lima Barreto, o rebelde imprescindível, Editora Expressão Cultural, São Paulo, 2006, faz uma interessante comparação entre Machado de Assis e Lima Barreto, na apresentação de seu livro, e, a certa altura do texto, faz referência à cor e ao preconceito, pelo fato de que ambos os escritores eram mulatos; diz Leitão: “No entanto, não deixemos que os preconceitos turvem a nossa visão: em um país que só reverencia a casa-grande, os dois mulatos simbolizam em suas raízes a ironia maior da jovem nação, cuja cultura mais refinada nasce sob o signo da miscigenação. Antonio Francisco Lisboa, dito o “Aleijadinho”, na plástica; padre José Maurício, na música; Machado e Lima, na prosa de ficção: todos eles nos revelam que, sem o sincretismo, as elites de Pindorama não teriam do que se orgulhar no grande palco do mundo ocidental...”.
Voltemos à obra de Lima. Quando Lima Barreto publicou Recordações do Escrivão Isaías Caminha já havia concluído o romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Portanto, poderia ter publicado qualquer um desses romances, mas deixou este último para mais tarde, preferindo fazer sua estréia com o primeiro (Recordações do Escrivão Isaías Caminha), com essa motivação: “Era um tanto cerebrino o Gonzaga de Sá – diz Lima -, muito calmo e solene. Pouco acessível, portanto. Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente mal feito, brutal, por vezes, mas sincero sempre. Espero muito nele para escandalizar e desagradar, e temo, não que ele te escandalize, mas que te desagrade. Como contigo, eu terei grande desgosto que isso aconteça a outro amigo”.
 Lima Barreto prossegue explicando o por que de sua preferência pelo Recordações do Escrivão Isaías Caminha, para sua estreia como romancista: “Espero que esse primeiro movimento, muito natural seja seguido de um outro de reflexão em que vocês considerem bem que não foi só o escândalo, o egotismo e a charge que pus ali. Peço que não te esqueças daqueles versos que pus no alto do primeiro capítulo, quando o comecei a publicar:
        Mon coer profond ressemble à ces voûtes d'église
        Où le moindre bruit s'enfle em une immense voix,
e então hás de ver que a tela que manchei tenciona dizer aquilo que os simples fatos não dizem, segundo o nosso Taine, de modo a esclarecê-los melhor, dar-lhes importância, em virtude do poder da forma literária, agitá-los porque são importantes para o nosso destino. Querendo fazer isso e fazer compreender aos outros que há importância na questão que eles tratam com tanta ligeireza, não me afastei da literatura conforme concebo e perpetuam os nossos mestres Taine e Brunetièro, mas temo que não tivesse conseguido bem o escopo e tu hás de me perdoar o desastre pela ousadia e tentativa”.
Podemos compreender, com o texto supra, que o escritor não estava interessado na arte pela arte; tampouco em seus artifícios verbais; ao contrário, a sua literatura tinha um endereço certo, qual seja, ir ao encontro do público, provocando-o para que este lhe dissesse sobre drama íntimo de cada um. Lima Barreto queria conhecer todos os sentimentos que envolvem a sociedade, suas quizilas todas, com o objetivo de analisar esse fenômeno social. Como ele próprio dizia, buscava “a solidariedade humana, mais do que nenhuma outra coisa, interessa o destino da humanidade”.
Sobre a má qualidade das edições das obras de Lima Barreto temos o depoimento do conceituado crítico literário, Francisco de Assis Barbosa, que escreveu o prefácio para o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, 7ª edição, Editora Brasiliense, São Paulo, 1978:
“É bem de ver que Lima Barreto – escreve Barbosa -, tanto em vida, como depois de morto, por vários fatores, que não vem a pelo comentar, foi maltratado pelas edições das suas obras. Daí o grande problema que tínhamos pela frente, apresentar o escritor tal como ele foi, e não mutilado ou deformado, como vinha sendo, dando azo às críticas injustas, feitas de boa ou de má fé, pelos que fingem ignorar ou insistem em desconhecer a mensagem renovadora do autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Ao cabo de um trabalho penoso é nosso dever reconhecer, com uma ponta de orgulho, não nos termos equivocado na escolha de nossos colaboradores”.
Os colaboradores, a que se refere Assis Barbosa, para o plano de publicação das obras de Lima Barreto, cuja coleção abrange dezessete volumes, são: o filólogo Antônio Houaiss e o professor de português Manoel Calvalcânti Proença. E, para cada uma das obras que integram a referida coleção, foi escolhido, por Barbosa alguns dos escritores brasileiros mais importantes para escrever o respectivo prefácio. Portanto, ficamos muito a dever ao homem culto que foi Francisco de Assis Barbosa e aos seus ilustres colaboradores (Houaiss e Proença), bem como aos ilustres escritores que aceitaram escrever os prefácios para cada uma das obras de Lima Barreto.
Os dezessete volumes, que compõem a referida coleção das obras de Lima Barreto, são: I - Recordações do Escrivão Isaías Caminha, prefácio de Francisco de Assis Barbosa; II - Triste Fim de Policarpo Quaresma, romance, prefácio de M. De Oliveira Lima; III - Numa e Ninfa, romance, prefácio de João Ribeiro; IV - Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, romance, prefácio de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde); V - Clara dos Anjos, romance, prefácio de Sérgio Buarque de Holanda; VI - Histórias e Sonhos, contos, prefácio de Lúcia Miguel Pereira; VII - Os Bruzundangas, sátira, prefácio de Osmar Pimentel; VIII - Coisas do Reino de Jambon, sátira, prefácio de Olívio Montenegro; IX - Bagatelas, artigos, prefácio de Astrogildo Pereira; X - Feiras e Mafuás, artigos e crônicas, prefácio de Jackson de Figueiredo; XI - Vida Urbana, artigos e crônicas, prefácio de Antônio Houaiss; XII - Marginália, artigos e crônicas, prefácio de Agrippino Grieco; XIII – Impressões de Leitura, crítica literária, prefácio de M. Cavalcanti Proença; XIV - Diário Íntimo, memórias, prefácio de Gilberto Freire; XV - O Cemitério dos Vivos, memórias e fragmentos, prefácio de Eugêgio Gomes; XVI - Correspondência, ativa e passiva, primeiro volume, prefácio de Antônio Noronha Santos; XVII - Correspondência, ativa e passiva, segundo volume, prefácio de B. Quadros.


REFERÊNCIAS:
LINS, Álvaro. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.
LEITÃO, Luiz Ricardo. Lima Barreto, o rebelde imprescindível. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2006.
LIMA BARRETO. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Prefácio de Francisco de Assis Barbosa. 7ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.




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23 de jul de 2017

[Conto] DYONELIO MACHADO – Ronda das gotas




                      – PEDRO LUSO DE CARVALHO


DYONELIO MACHADO nasceu em Quaraí, RS, em 1895, e faleceu em Porto Alegre, em 1985. Foi médico, escritor, músico e pintor. Passou a ser conhecido como escritor ao receber o Prêmio Machado de Assis, em 1935, pelo seu romance Os ratos, hoje um dos modernos clássicos da literatura brasileira. Depois publicou, entre outros: Um pobre homem, O louco de Cati, Os deuses econômicos, Prodígios, Sol subterrâneo, Desolação, Passos perdidos, Ele vem do fundão, Endiabrados, Nuanças.

Segue o conto Ronda das gotas de Dyonelio Machado (in Rodízio de contos. Org. por Arnaldo Campos, Charles Kiefer e Laury Maciel. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985, p. 46-48):


                                                 RONDA DAS GOSTAS
                                      
                                               -- DYONÉLIO MACHADO           

               

A pequenita foi, pé ante pé, até a porta que abria para o corredor. Estendeu um olhar longo para o fundo da casa, para se certificar de que não era observada, e voltou, tranquila, para o seu lugar, na sala da frente.

Subiu de novo à janela.

Era num primeiro andar.

Chovia.

Alice divertia-se vendo a chuva cair.

Bem à altura dos seus olhos, uns pingos grossos, redondos, deslizavam, suspensos dos cabos eletrolíticos que margeavam a rua num e noutro lado.

Vinham uns atrás dos outros. Aproveitavam um declive do fio, doce e curvo como um seio, e precipitavam-se, velozes, como se brincassem “de pegar”.

Alguns, pesados, destacavam-se, como grandes pérolas hialinas, antes de atingir o seu fim – que era a junção do arame que, à altura da sua porta, distribuía a energia elétrica à casa.

Os mais valentes, porém, triunfavam daquela distância. Às vezes, mesmo, dois ou três, retardados pelo aclive que agora o fio apresentava e que era necessário vencer, fundiam-se num só, que brilhava um momento, enorme, majestoso, e ruía, depois, pesadamente.

Como se vê, era assaz animado o espetáculo.

Ordinariamente, nem bem acompanhava até o termo do seu percurso essa gota, já outras muitas, cinco ou seis – uma multidão – despontavam à sua esquerda, pelo outro lado da janela – cujo retângulo cinzento, naquele dia triste de chuva, limitava o seu mundo visual.

Alice batia festivamente as palmas, quando os seus pingos chegavam ao fim de sua jornada e ficavam ainda luzindo, antes de se diluírem, aprisionados na malha tosca que a extremidade do fio de ligação fazia, ao enroscar-se no cabo principal.

Alice interessava-se particularmente pela sorte das pequeninas gotas, quando estas se precipitavam no espaço. A princípio era um simples intumescimento claro da massa escura do condutor. Depois, com a chegada de outras, maiores, iam crescendo, definindo-se, até tomar o vulto das demais e seguir-lhes o mesmo caminho, como quem diz o mesmo destino, despencando-se, finalmente, em meio do trajeto ou no seu fim, mas sempre despencando-se.

Para as crianças, como em geral para os simples e sábios, tudo tem vida. Para as crianças, especialmente, tudo possui uma expressão humana.

Para Alice, pois, os pingos menores eram crianças, como ela, e os pingos maiores – adultos – os pais. Certamente eram pais extremosos aquelas gotas grossas que vinham tomar nos seus braços fortes as gotas pequeninas, como que abandonadas, coitaditas, no meio da estrada fria...

Ao passar pela sua frente, Alice vaticinava, secretamente, o futuro de cada gota: esta chegará... esta não chegará... Dir-se-ia uma pequenina bruxa, postada no caminho da vida, a profetizar para uma humanidade também pequenina, mas igualmente atingida da incerteza e inconstância de nosso destino...

A representação repetia-se. Alice desejá-la-ia mais variada. Já a enfarava, pois.

Tinha, porém, uma outra curiosidade, agora. Superior ao prazer que lhe dava a passagem ininterrupta das gotas: era descobrir-lhes a origem!

Onde nasceriam? Longe dali? Na outra janela? – E Alice curvava tristemente a pequenina fronte ao peso desse grande mistério, como o homem igualmente, ante o tenebroso problema da sua própria origem...

Uma esperança, porém, atravessou-lhe o craniozinho esbraseado! Fez-se-lhe uma luz! Talvez fosse na casa vizinha! Cada casa possuía certamente as suas gotas, que nasciam e morriam dentro do espaço que vai de uma à outra! Era lógico! – E Alice da mesma forma que os homens, corria sofregamente atrás dos enganos da lógica, na necessidade de engendrar a unidade que não existe no universo, mas que constitui a única condição da sua explicação humana...

O seu objetivo agora era temerário. O banquinho sobre que se achava, e que constituíra até aí o seu posto rudimentar de observação, seria totalmente ineficaz para a acompanhar na arrojada empresa. Afastou-se, então, como quem ia munir-se de um aparelho mais adiantado. Voltou, pouco depois, com uma cadeira, enorme, de braços.

Fez a substituição e subiu.

Estendeu o olhar, com metade do corpo para fora.

Ela julgara que iria surpreender as gotas na sua origem definida e palpável: uma mão potente, depositando-as, facilmente, sobre o fio, já feitas, com vida e aquela sua forma, original e caprichosa.

Decepção!... Sobre o cabo, nada de extraordinário. As pequenas gotas de água pareciam surgir por si, no meio dum mistério, ao mesmo tempo simples e profundo, assegurando-se, bem assim, pelo esforço próprio, o estado esferoidal que as distinguia...

Igualmente, não tinham lugar certo para nascer. O fio, molhado em toda a sua extensão, parecia constituir a grande matriz, indiferentes das gotas da chuva, que se desatavam na sua superfície, como pequenos botões de flores, desabrochando ao longo dum galho nu.

E Alice pensou então que, de todo o espetáculo, desde a origem do pingo d’água, até o seu fim, só o que havia de claro e de certo – era a sua mensagem através do retângulo cinzento da janela. Era o seu fugitivo instante de vida...

– Minha filha! Dantas! Acudam!

Alice procurava voltar-se. Só então é que viu o perigo em que se encontrava, prestes também a desabar no abismo da rua.

O homem correu. Deitou-lhe um braço enérgico e amparador. Retirou-a muito pálida da janela, onde ela, pela primeira vez, se debruçara sobre o mistério da vida e da morte...

– Minha querida filha!... Que susto tu deste na tua mãe...



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13 de jun de 2017

DOROTHY PARKER – Uma entrevista




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Dorothy Parker (Dorothy Rothschild, era o seu nome) nasceu em West End, New Jersey, em 1893. Em 1914, vendeu o seu primeiro poema para a revista Vanity Fair. Dois anos depois foi contratada pela revista Vogue; em 1917 passou a escrever crítica de teatro para Vanity Fair. Os seus contos passaram a ser publicados em 1925 pela The New Yorker, criada nesse ano; para essa mesma revista passou a escrever resenhas de livros em 1927. Dois anos depois ganhou o prêmio O. Henry pelo seu conto Big Blod, que a escritora incluiu nos seus livros de contos: After Such Pleasures (1933), Here Lies (1939) e Collected Stories (1942). Parker seguiu escrevendo contos, poemas e crítica, que foram publicados no seu país nos anos que se seguiram, sempre com grande sucesso, o que não ocorria com o que mais gostava, suas peças teatrais.
Dorothy Parker também escreveu roteiros para Hollywood, dentre eles a Star Is Born (Nasce uma Estrela), com indicação para o Oscar em 1937 (a escritora passou a detestar Hollywood, a ponto de recusar-se pronunciar esse nome, substituindo- por “lá”). A escritora foi amiga e também a contista preferida do erudito crítico literário norte-americano Edmund Wilson, autor de Axel's Castle (O Castelo de Axel).
Quando Dorothy Parker foi entrevistada pela The Paris Review, no pequeno quarto do hotel em que morava, no centro de Nova York, dentre as muitas perguntas, que lhe fez a entrevistadora da revista, uma foi se é vantagem a segurança econômica para o escritor; Parker respondeu-lhe:
"Sim. Ficar dura não faz bem nenhum, a menos que você seja uma espécie de Keats. Os que escreviam bem nos anos 20 tinham uma vida confortável. Quanto a mim, gostaria de ter dinheiro. E gostaria de ser uma boa escritora. Essas duas coisas podem se juntar, e espero que se juntem, mas, se for pedir demais, prefiro ter dinheiro. Odeio quase todos os ricos, mas acho que eu seria adorável. No momento, porém, gosto de pensar na observação de Maurice Baring: “Se você quer saber o que o Senhor pensa do dinheiro, terá apenas de olhar para aqueles a quem Ele o dá”. Sei que não ajuda muito quando o lobo bate na porta, mas é um consolo".
Dorothy Parker morreu de um ataque cardíaco no Hotel Volney, em Nova York, em 1967, aos 74 anos, deixando obras poéticas, contos e crítica literária da maior importância. No Brasil, foi publicado pela primeira vez o livro de contos Big loira e outras histórias de Nova York.
Edmund Wilson, ficcionista e crítico literário famoso, dizia sobre os contos da talentosa escritora da era do jazz dos anos 20 e 30: “Os contos de Dorothy Parker continuam hoje tão agudos e engraçados como na época em que foram escritos." E, para F. Scott Fitzgerald, Dorothy Parker era "A melhor escritora de sua geração."


REFERÊNCIA:
PLIMPTON. George. Escritoras e a arte da escrita. The, Paris Review. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001, p. 86.





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14 de mai de 2017

DENIRA ROZÁRIO - Palavra de Poeta / Portugal




PEDRO LUSO DE CARVALHO

A jornalista brasileira Denira Rozário escreveu o livro Palavra de Poeta – Portugal, no qual reuniu entrevistas que realizou, em Portugal, com 24 dos maiores poetas portugueses contemporâneos (17 homens e 7 mulheres), e que resultou na notável antologia de sua criação publicada pela Civilização Brasileira, em 1994. Enio Silveira, responsável pela editora, lamentou o fato de Otto Lara Rezende, um dos maiores cronistas da literatura brasileira, ter nos deixado sem ver o livro publicado. Otto Lara já havia lido e apreciado o livro anterior de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Brasil.
Mais adiante, Denira Rozário viria escrever Palavra de Poeta - Cabo Verde e Angola, livro no qual entrevista 12 poetas cabo-verdianos, entre eles, Aguinaldo Fonseca, João Melo e José Eduardo Agualusa, o último livro da trilogia, que visou a documentar o significado de ser poeta e de escrever poesia no Brasil, em Portugal e, depois, em Cabo Verde e Angola (Editora Bertrand Brasil).
Escreveu Antonio Houaiss, crítico, ensaísta, filólogo e integrante da Academia Brasileira de Letras, na nota introdutória da obra Palavra de Poeta – Portugal, em 26 de maio de 1993:
Este inquérito, valioso, é continuação necessária, do antecedente, feito junto a poetas brasileiros altamente representativos da nossa criatividade atual. Como contrapartida daquele, este abrange nomes muito atuais e atuantes do cenário poético português contemporâneo. Como era de esperar, dada a competência da inquiridora – versátil, informada, apaixonada da matéria, avessa `uniformização, descobridora das singularidades pessoais -, há aqui um quadro sincrônico soberbo: a mesma língua manejada segundo as variações temáticas que os tempos e este Tempo oferecem [...] preciosas amostragens poetadoras, poéticas e poetizantes [...]”.
Esse livro de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Portugal, teve um tratamento esmerado, a partir da capa, para a qual Felipe Taborda utilizou serigrafia da autora, pelas as anotações sobre a obra escritas pelo editor Ênio Silveira, culto e exigente, passando pela ‘Palavra de Antonio Houaiss’ e culminando com as entrevistas feitas com os maiores poetas de hoje e breve antologia de seus poemas.
Foram entrevistados por Denira Rozário os seguintes poetas: António Gedeão, Sofia de Melo Breyner Andersen, Eugênio de Andrade, Egito Gonçalves, Natália Correia, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, Ana Hatherly, Maria Alberta Menéres Melo e Castro, Albano Martins, E. M. de Melo e Castro , António Asório, Pedro Tamen, Fiama Hasse Pais Brandão, Casimiro Brito, Al Berto, Nuno Judice, Rosa Alice Branco, José Jorge Letria, Luiz Miguel Nava, Fernando Pinto Amaral, Adília Lopes e Paulo Teixeira.
Escolhi alguns trechos da entrevista que Denira Rozário fez com Fernando Pinto Amaral (1960), escolha essa que fiz aleatoriamente: “Crítico notável, que se revela notável poeta [...], fez o curso inverso, primeiro o crítico depois o poeta, escolheu o caminho mais difícil, menos comum e de maior risco. Risco ocorreu também ao abandonar, no 4º ano, o curso de medicina, carreira considerada estável para estudar literatura. A vocação era poética, a poesia venceu [...] A vontade de escrever mais regularmente surgiu a partir de 17 anos, durante uma paixão – confessa uma tendência para amores impossíveis [...] Sobre ser poeta, cita Milan Kundera, “só o autêntico poeta sabe o que é o imenso desejo de deixar essa casa de espelhos onde reina um silêncio ensurdecedor”.
.Em outro trecho Rozário pergunta Fernando Pinto Amaral se seria difícil falar sobre a atual poesia portuguesa, e o poeta respondeu-lhe: “Por isso remeto para o meu ensaio o Mosaico Fluido – Modernidade e Pós-Modernidade na Poesia Portuguesa mais Recente, saiu pela Editora Assírio & Alvim”.
A seguir Rozário pede ao poeta, crítico e professor que diga quais são os bons poetas portugueses e brasileiros: “Quanto aos bons poetas portugueses que leio e que aprecio, são tantos que não vale a pena enumerá-los – teria medo de esquecer alguns. Em relação aos brasileiros, gosto de ler, por exemplo, Mário de Andrade, Jorge Lima, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes. A poesia mais recente, é pena, conheço-a muito mal, pois chegam poucos livros”.
À pergunta da entrevistadora sobre sua condição de leitor, se é organizado, respondeu-lhe que “Como leitor, sou um tanto anárquico, não leio muitos livros nem gosto de devorá-los. Estou lendo poemas do sueco Tomas Transtromer, ensaios de Walter Benjamin e um livro de contos de Paul Bowles.”
E sobre exigir, a poesia, uma boa formação literária, disse que:
A questão é complexa, visto que, a meu ver, a inspiração poética em si mesma não exige qualquer formação. Sendo inata em algumas pessoas, ela brota espontaneamente e às vezes desde cedo, por exemplo, o caso de Rimbaud. Todavia, para que os resultados sejam bons, torna-se relativamente necessário uma consciência crítica que só aparece quando há certa bagagem cultural. Por isso, concordo que é exigível alguma formação literária, mais ou menos sólida ou fluida.”
Dentre os três poemas de Fernando J. B. Pinto do Amaral [nasceu em Lisboa, no dia 12 de maio de 1960], que integram a entrevista de Rozário, transcrevo uma delas:

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.
muito longe, uma estrela.
Cruel foi sempre o seu fulgor:

sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.
Era esse o meu reino,
e era talvez essa
a voz da própria lua.



Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
- nenhum gesto do céu ou da terra.

Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.



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10 de abr de 2017

MARIO VARGAS LLOSA – Quem Matou Palomino Molero?




PEDRO LUSO DE CARVALHO


MARIO VARGAS LLOSA escreveu o romance Quem Matou Palomino Molero? em 1986. Nesse mesmo ano o livro foi publicado no Brasil pela editora Francisco Alves, com a tradução de Remy Gorga Filho. Bella Jozef disse sobre essa obra: “O narrador traça o quadro deprimente de uma realidade com o problema da injustiça e estratificação das classes sociais que divide e separa também as etnias, alternando a geografia física e psicológica”.
A história contada por Vargas Llosa se passa nos anos cinquenta, tendo por personagens centrais os policiais: Tenente Silva e Lituma. Lituma encontrou o corpo de Palomino Molero enforcado na velha algarobeira, com sinais em seu corpo de atos de tortura, como é narrado no início da obra:
Antes e depois de matá-lo haviam cortado seu corpo em tiras com uma crueldade sem limites: tinha o nariz e a boca cortados, coágulos de sangue ressequido, equimoses, queimaduras de cigarro, e, como se não fosse bastante, Lituma compreendeu que também haviam tentado capá-lo, porque os ovos pendiam até a entreperna. Estava descalço, despido da cintura para baixo, com uma camiseta em pedaços. Era jovem, magro, moreninho e ossudo (...). – Quem fez isto – balbuciou, contendo a náusea”.
O crime, que foi cometido no pequeno povoado do Peru, Talara, onde se encontrava instalada a International Petroleum Company, com seus escritórios e as casas dos gringos, e a Base Aérea de Piura, deixou o guarda Lituma abatido por pressentir que o assassinato de Palomino Molero poderia representar uma ameaça para ele, caso algum peixe grande da Base Aérea estivesse envolvido no crime, como disse a um interlocutor seu: “- Mas não posso tirar o magrinho da cabeça. Tenho pesadelos, parece que estão arrancando os meus ovos como fizeram com ele. Coitadinho: morreu com ele pelos joelhos e achatados como ovos fritos”.
A partir daí o Tenente Silva e o seu subordinado Lituma passaram à fase de investigação da autoria do crime, andando praticamente no escuro à busca de suspeitos. Aos poucos começaram a aparecer aqui e ali alguns elementos que resultavam em indícios, até que passaram a suspeitar do Comandante da Base Aérea, o Coronel Mindreau. Este recebeu os policiais em seu gabinete, pela segunda vez: “- Em que posso servi-los? – murmurou com uma urbanidade que sua expressão glacial contradizia. – Aqui estamos outra vez pelo assassinato de Palomino Molero – respondeu o Tenente, com todo respeito. – Para solicitar sua colaboração, meu Coronel”.
A investigação prosseguia com seus percalços e temores, principalmente por parte do guarda Lituma. Passaram então a dar maior atenção ao suspeito principal, o Coronel Mindreau, depois que receberam uma denúncia anônima, acusando-o da autoria do crime. E, para surpresa dos policiais, estes descobriram que o bilhete com a denúncia foi escrito pela própria filha do Coronel, Alícia Mindreau, namorada de Palomino Molero, com quem fugira para casar-se. O casamento só não se consumou pela ação do Coronel Mindreau.
A investigação prosseguia tensa à vista dos riscos para o Tenente Silva e para o guarda Lituma: o suspeito era pessoa influente e capaz de atos violentos. O dia-a-dia dos policiais somente era amenizado com a presença Dona Adriana, casada com o pescador Moisés, homem bem mais velho que ela. O Tenente Silva não escondia que sentia uma forte atração física por essa mulher gorda e bem mais velha que ele. Lituma não compreendia esse sentimento; não entendia por que ela lhe dava tanto tesão: “- Se continuar olhando assim para Dona Adriana, seus olhos vão gastar, meu Tenente” – disse-lhe Lituma.
Fora esses momentos de descontração na pensão de Dona Adriana, o resto do tempo os dois policiais passavam envolvidos com a investigação. O Tenente Silva esforçava-se para descobrir o assassino de Palomino Molero, não que estivesse obcecado para que fosse feita a justiça, mas sim pela curiosidade que o perseguia; queria saber a todo custo quem matou Palomino Molero. O guarda Lituma admirava o estilo do Tenente Silva, que sabia como arrancar os segredos das pessoas. Quando foi procurado por Alícia Mindreau, numa tarde em que espiava com um binóculo Dona Adriana banhar-se num lago, essa qualidade foi posta à prova.
O tenente Silva nesse dia foi surpreendido pela filha do Coronel Mindreau quando se deliciava com a nudez de Dona Adriana. Lituma ouviu o Tenente dizer a Alícia: “- É perigoso surpreender assim uma autoridade em seu trabalho, senhorita. E se, de ricochete, pega um tiro? – Em seu trabalho? – desafiou-o ela, com uma gargalhada sarcástica. – Espiar mulheres que tomam banho é seu trabalho?”.
Nesse dia, a investigação dos dois policiais chegou ao paroxismo quando Alícia Mindreau acusou seu pai, o Coronel Mindreau, de ser o responsável pela morte de Palomino Monlero. No Posto da Guarda Civil, Alícia contou ao Tenente Silva a conversa que tivera com seu pai: ele a procurou meio louco de susto e arrependimento: “- Sou um assassino Alicinha. Torturei e matei o recruta com quem você fugiu”.
A partir dessa altura da investigação tudo indicava que nada mais restava para ser esclarecido, o que não significava que haveria condenação do Coronel Mindreau, depois da conclusão do inquérito policial, pelo Tenente Silva. Não ficaria a dúvida sobre a autoria do crime, mas ainda não estavam esclarecidas as circunstâncias de tal ato, e, tampouco, não se poderia prever o que viria ocorrer com o assassino de Palomino Molero, O Coronel Mindreau. Alícia teria falado a verdade sobre as relações sexuais que dizia ser obrigada a manter com seu pai, o Coronel Mindreau?
Por outro lado, o Coronel, pai de Alícia, teria falado a verdade quando negou ter forçado a filha a manter relações sexuais com ele por muitos anos? As afirmações que fizera eram verdadeiras? O certo é que, na praia onde se encontravam, o Coronel Mindreau confessou ter matado Palomino Molero. E que, depois da confissão, pediu que os policiais o deixassem ali. E que, após terem se afastado, ouviram um estampido que indicava tratar-se de um tiro.
O leitor verá que a história de Vargas Llosa não tem como único clímax a descoberta do assassino de Palomino Molero; o ápice da narrativa vem depois da confissão do Coronel Mindreau de ser ele o assassino. Portanto, o desfecho da história não está unicamente na descoberta da autoria do crime, mas também com o que ocorre com o assassino de Palomino Molero e com Alícia, filha do Coronel.
Espero não ter tirado a curiosidade do leitor sobre o desenlace completo dessa história, por ter revelado o nome do assassino, já que restou ser contado o que aconteceu com o Coronel e com sua filha Alícia. O certo, no entanto, é que Quem Matou Palomino Molero? está colocado entre os melhores romances de Mario Vargas Llosa, que a cada livro seu vem confirmar ser ele um dos escritores mais importante da literatura sul-americana.




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