8 de fev de 2015

ADONIAS FILHO – Vida & Obra



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em 1965, Adonias Filho passou a integrar a Academia Brasileira de Letras; o discurso de saudação ao novo imortal foi pronunciado por Jorge Amado; o Estado da Bahia sentia-se muito bem representando nessa época por esses seus dois filhos ilustres.
Para os que não estão familiarizados com a obra de Adonias Filho, é oportuna uma rápida apresentação, além da mencionada acima; e, para esse mister, valemo-nos do que escreveu Assis Brasil, no ano de 1969; para esse ensaísta, a literatura brasileira tinha, quatro escritores já plenos e amadurecidos, João Guimarães Rosa, nessa época já falecido, e outros três que estavam em plena atividade, que eram Clarice Lispector, Autran Dourado e Adonias Filho.  
Para Assis Brasil, esses quatro escritores – Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Autran Dourado e Adonias Filho – substituíram  um tipo de romance burguês, da linhagem francesa, que foi cultivado com o pomposo nome de ficção urbana; eles, que foram apontados como marco inicial, e que romperam com o clima acadêmico de nosso romance, não estavam ligados a nenhuma corrente ou escola do modernismo.
Como não se pode dizer que a obra independe da vida que levou ou que leva o autor, vamos conhecer um pouco da vida e da trajetória literária do escritor. Adonias Aguiar Filho nasceu a 27 de novembro de 1915, na fazenda São João, de propriedade dos pais, no município de Itajuípe, Bahia; teve a infância de menino de roça de cacau; ouviu histórias dos trabalhadores da fazenda, sobre o que aí se passava – essas histórias, alguns personagens e a própria fazenda iriam para os seus romances e contos.
  O menino tinha sete anos quando a família deixou o munícipio de Itajuípe para residir Ilhéus; aí cursou o primário no ateneu Fernando Caldas; era péssimo aluno; nas férias, retornava à fazenda; em 1928, foi matriculado  no internato do Ginásio Ipiranga, em Salvador, onde foi contemporâneo de Jorge Amado; interrompeu os estudos ao quatorze anos, passando grande temporada na fazenda.
O período que passou na fazenda foi de grande importância para o romancista; se gravou, talvez mais do que na infância, por suas observações e pelas histórias que ouviu dos moradores, o viria tornar-se o cerne de seus romances. Nessa fase também se dedicou à leitura; leu Castelo Branco, Macedo e Alencar. Voltou ao colégio depois de um ano de ausência; terminou curso em 1934.
Levaria consigo as lembranças dos professores Tarciso Teles (de português e geografia) e Manoel Peixoto (de inglês e moral e cívica), e também das tertúlias literárias no Grêmio Barão do Rio Branco, onde conheceu a literatura de Raul Pompéia, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Aluísio Azevedo, entre outros; leu também os poetas, entre eles Olavo Bilac, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães e  Castro Alves; da literatura francesa, leu as traduções de Alexandre Dumas Filho e Balzac.
Quando cursava o ginásio no Ipiranga, Adonias Filho escreveu para os jornais de Salvador: Diário de Notícias e O Imparcial. Pouco depois de terminar o curso ginasial, influenciado pela literatura do nordeste, escreveu Cachaça, romance que destruiu mais tarde. O escritor acompanhava os passos da moderna literatura brasileira e lia importantes pensadores, tais como: Maquiavel, Comte, Darwin.
 Nessa época, com a ajuda financeira do pai, viajou pelo Estado da Bahia, e fez apontamentos para um livro seu livro Renascimento do homem, ensaio político que publicaria em 1936, pela editora Schimidt; em 1935, fez nova viagem, desta vez pelos Estados de Minas, Rio e São Paulo; no início de 1936, fixou residência no Rio.
No Rio, Adonias Filho entrou Adonias em contato com o grupo católico que se reunia no café Gaúcho, Tasso da Silveira, Andrade Muricy, Barreto Filho, Adelino Magalhães – todos, aliás, bem mais velhos do que o escritor. Logo depois, travava relações com o romancista Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Otávio de Faria e Rachel de Queiroz, que se tornou grande amiga.
Foi nesse convívio que veio a descobrir autores como Thomas Hardy, Mauriac, Bernanos, wassermann, Malégue. Passou a colaborar com mais regularidade nos jornais e revistas literárias do Rio e de São Paulo, como o Correio da Manhã, os Cadernos da Hora Presente, a Revista do Brasil e a revista Pan; nessa revista, o escritor foi colega de redação de Clarice Lispector. Em 1937, passou a trabalhar no jornal  A Manhã, recém pelo poeta Cassiano Ricardo.
Em 1938, escreveu Corpo Vivo, romance que foi lido por Otávio Faria, Lúcio Cardoso e Almeida Sales; o livro, no entanto, não o satisfez (guardou-o para reescrevê-lo); nessa mesma época, planejou uma trilogia de romances, que teria como cenário a zona de cacau; em 1939, começou a escrever o primeiro desses livros, Os servos da morte, que foi concluído em 1943, e que, somente em 1946, foi publicado pela editora José Olímpio.
Adonias Filho continuava colaborando em jornais e fazendo traduções, durante esse período (anos 40). Algumas de suas traduções: O pântano do diabo, de Georg Sand, A Famíia Bronte, de Robert de Traz, e Gaspar Hauser, Golovin e O processo Maurizius, de Jabob Wassermann, este em colaboração com Otávio de Faria.
Em 1944, fundou a editora Ocidente, publicando um único livro, As metamorfoses, de Murilo Mendes, com ilustração de Portinari; nesse mesmo ano, casou-se Adonias Filho com D. Rosita Galiano, carioca, de quem um casal de filhos: Raquel e Adonias.
 . Depois passou a dirigir a editora A Noite, onde permaneceu até 1949. Durante esse período colaborou no suplemento A Manhã (coluna Letras e Artes) com um rodapé semanal assinado com o pseudônimo de Djalma Viana (rodapé idealizado por Carlos Lacerda, então diretor do suplemento).
Em 1950, Adonias Filho candidatou-se, pela Bahia, ao cargo de deputado federal, não conseguindo eleger-se; então resolveu permanecer na Bahia para concluir o romance Memórias de Lázaro (sua publicação, pela Cruzeiro, deu-se em 1952); de volta ao Rio, assumiu, a coluna de crítica literária do Jornal de Letras (publicou em livro alguns desses artigos, e mais outros do Correio da Manhã, em 1958, com o título de Modernos ficcionistas brasileiros).
Em 1954, publicou Adonias Filho, pelo Serviço de Documentação do Ministério de Educação, Diário de um escritor, fragmento de um diário que vinha escrevendo desde os 25 anos; nesse ano, passou a dirigir o Serviço Nacional de Teatro, de onde saiu dois meses depois para dirigir o Instituto Nacional do Livro; aí permaneceu por oito meses, depois retornou ao SNT, onde ficou até 1956.
 A partir de 1956, Adonias Filho passou a dedicar-se inteiramente à literatura e ao jornalismo; em 1957 ingressou na redação do Diário de Notícias, onde passou a assinar a seção literária A Estante.
Dentre a obra de ficção que produziu, destacam-se, três romances, que estão associados por uma temática telúrica, a civilização do cacau no interior da Bahia, quais sejam: Os servos da morte (1946), Memórias de Lázaro (1952); Corpo vivo (1962). Com esses livros, Adonias Filho construiu uma importante obra da literatura brasileira moderna.
Além desses livros, Adonias Filho publicou, entre outros, um livro de novelas, e o romance O forte (1965); este tem cenário diferente de seus romances anteriores: a história passa-se na cidade de Salvador, em eras mais distantes. Em 1968, Adonias Filho voltaria à civilização do cacau, com Léguas da promissão, livro composto de vários contos. Depois, publicou Luanda, Beira, Bahia (1977); compõe o cenário do romance: a Bahia do Brasil, a Beira de Moçambique, e a Lunda de Angola; outro romance, O homem de branco (1987), a história de alguém que trilhou um sofrido calvário.
No dia 2 de agosto de 1990, morre Adonias Filho, em Ilhéus, Bahia, deixando como legado uma obra literária de extraordinário valor.


REFERÊNCIAS:
BRASIL, Francisco de Assis Almeida. Adonias Filho. Ensaio. Rio de Janeiro: Organização Simões Editora, 1969.
PEREZ, Renard. Escritores Brasileiros Contemporâneos. Escritores Brasileiros Contemporâneos. I série, 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.


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