20 de set de 2012

[Conto] MACHADO DE ASSIS – Incorrigível

               
                                                
                          por  Pedro Luso de Carvalho


MACHADO DE ASSIS (Joaquim Maria Machado de Assis) nasceu no Rio de Janeiro a 21 de junho de 1839; aí faleceu a 29 de novembro de 1902. Sobre ele muito se tem escrito, como veremos abaixo, a título de exemplo:

JOSÉ VERISSIMO: “Machado de Assis foi a mais eminente figura de nossa literatura”.

CARLOS FUENTES, importante escritor mexicano - ensaísta e romancista -, falecido neste ano: “Borges foi o primeiro narrador de língua espanhola nas Américas (Machado de Assis já o havia conseguido, milagrosamente, na língua portuguesa do Brasil)”.

 AURÉLIO BUARQUE DE HOLLANDA e ÁLVARO LINS (discorrem sobre Machado de Assis): “Tem este nome, por todos os títulos, um capítulo especial, um lugar à parte na literatura brasileira. Não só a sua personalidade original o colocou acima de escolas e grupos, dando-lhe aos livros uma fisionomia própria, mas a sua obra apresenta um valor, uma importância literária sem igual em nossas letras”.

GUILHERME FIGUEIREDO: “A tradição romântica e realista do conto brasileiro se inclinou para a síntese de situações, para a fotografia rápida de caracteres. Narrativas como as que escreve Viriato Correia são pouco comuns, sobretudo desde que Machado de Assis elevou à perfeição a técnica do conto”.
        Segue o conto Incorrigível, de Machado de Assis (In Machado de Assis/Contos sem data. Organização e prefácio de R. Magalhães Junior (da Academia Brasileira de Letras). Rio de Janeiro: Edições Ouro, 1966, p. 75-78):



INCORRIGÍVEL
       (Machado de Assis)


A Igreja ficava perto. D. Leocádia vestiu-se e dirigiu-se para lá.

Quem visse essa bela viúva de trinta e dois anos, magra, alta, corada, sem nenhuma cor de tristeza no aspecto, menos ainda de ascetismo, muito adornada de rendas, que, posto que roxas, pareciam feitas para a mais virginal das criaturas, - não acreditaria que ela ia buscar à igreja, não digo uma consolação, que é pouco, mas um refúgio e uma força.

Pois ia. Meia hora antes tinha recebido uma carta de outra pessoa, moça de vinte e sete anos e solteira. A carta era de cólera e produziu cólera. Pelo assunto? Não; não era, pelo assunto, que não passava de um simples desacordo sobre não sei que história de teatro lírico. Então, pelos termos? Entendamo-nos, os termos eram duros, mas não eram a causa. A causa jazia em ambas, eram os belos olhos de um cavalheiro que ambas cobiçavam e que as cortejava ao mesmo tempo. Nenhuma delas o declarou nunca à outra; mas ambas sentiam-se inimigas. Uma e outra pegavam do primeiro pretexto que lhes ficou à mão, e trocaram muitas palavras cruas e decisivas.

A última carta de D. Leocádia era da véspera, e trazia coisas extraordinárias. Candinha gastou uma noite inteira em meditar o que lhe diria e compôs uma epístola por modo singular, tomando nota das palavras que lhe iam lembrando; e só depois de ter um arsenal delas é que pôs a pena no papel. Para que transcrever a carta? Seria então necessário e equitativo transcrever a outra, e depois outra e mais outra, e não acabávamos mais; acrescendo que o objeto deste escrito não é especialmente esse.

O que importa saber é que D. Leocádia recebeu a carta e ficou alucinada. Fez, só consigo, mil desatinos, mordeu o lenço, quebrou um vaso, bateu com o pé, feriu o ar com punhaladas, e afinal, quando não podia mais, desatou a chorar. As lágrimas aliviaram-lhe o coração, mas não o libertaram inteiramente da aflição que o agitava, nem ainda menos lhe tiraram da cabeça a memória da rivalidade da outra.

Já daqui se adivinha que ela amava muito ao rapaz anônimo, objeto de tanta indignação. Ou, se não o amava muito, é certo que queria casar com ele, o que vinha a dar na mesma. Entretanto, não era só amor que ela trazia em si, - ou só amor humano. D. Leocádia era um composto de curiosidades terrenas, e muita devoção. Tinha a devoção sincera, real e profunda, filha não só da educação, mas do próprio temperamento dela. Nos momentos de crise, D. Leocádia pensava no céu, e corria para ele.

Foi o que fez agora. Vestiu-se e foi para a igreja. Era a hora da missa, e havia algumas pessoas, não muitas; senhoras poucas. Ainda assim, para que não a distraíssem, correu o véu pelo rosto, e foi ajoelhar-se a um canto.

D. Leocádia rezou fervorosamente; pediu a Deus paz do coração. Não pediu perdão das culpas, porque em si mesma achava que não as tinha, e já isso era uma rebeldia; mas havia mais. A prece foi atalhada, em alguns pontos, por maus pensamentos. Os termos ruins da carta de Candinha ressoavam-lhe no espírito, donde se podia ver que não esquecera nada. Não admira que não achasse toda a consolação que viera procurar.

Acabou de rezar e sentou-se. No momento em que levantava um pouco o véu para fazer o sinal da cruz, duas outras senhoras, que estavam defronte, viram-lhe parte do rosto, e uma pareceu conhecê-la.

– É ela! Exclamou. Não lhe dizia?

– Sim, parece que é.

– Não há dúvida; vi agora a cara. Você já sabe o negócio?

– Que negócio?

– O negócio do Reginaldo.

– Não.

– Não?

– Que Reginaldo? O primo da Candinha?

– Sim, esse mesmo. Você sabe que a Candinha gosta dele, e ele faz-lhe festas. Pois a Leocádia parece que também anda namorada.

– Também?

– Dizem todos, e parece mesmo que já as duas não andam em boa harmonia; o que eu estimo bem.

– Por quê?

– Não posso suportar esta Leocádia; parece criança. Você sabe o que ela me fez, não sabe? A tal senhoria da chácara...

Era questiúncula a propósito de uma chácara, pretendida por ambas. Não conto a versão desta senhora, porque seria preciso contar a da outra, e então ia longe, ou não dizer senão uma o que seria injustiça. Fiquemos aqui. A verdade é que as duas não andavam bem; e, conquanto se falassem, detestavam-se.

 D. Leocádia não olhava para elas; olhava para o céu. Verdadeiramente era para o céu. Sentada no banco, à espera que a missa começasse, tinha o coração nas mãos de Deus; encontrara a paz. A corda mística vibrava fortemente, e toda a terra estava aniquilada. D. Leocádia já não pensava mesmo no namorado, menos ainda na rival. Com os olhos no altar, via a imagem de Cristo, e nutria-se daquele sangue.

Entretanto a missa demorava-se; e D. Leocádia olhou em volta de si. Viu as outras duas damas, e conheceu-as. Passou-lhe um frio pela espinha. Uma daquelas, a da chácara, também olhou para ela, e parece com alguma coisa no rosto que não agradou à outra; pode ser também que não fosse nada. D. Leocádia, porém, que a detestava, não pode deixar de fitá-la com um gesto de desprezo. Posto que tivesse o rosto coberto, deu à cabeça um certo movimento, que fez adivinhar a expressão da fisionomia; e foi então que a outra correspondeu de igual maneira.

A missa demorava-se; mas o ódio, o despeito, os interesses mesquinhos trabalhavam antes dela, e o coração de D. Leocádia foi perdendo a paz. Ela recordou tudo, tudo, as palavras que a outra dissera dela, o mal causado, as raivas engolidas, e o clangor da guerra acordou todas as fibras daquele organismo.

Se a missa viesse! Mas a missa demorava-se, nem padre, nem Deus, nada; era só e somente a rival que falava em segredo para outra, olhava depois para D. Leocádia, ora sorrindo, ora indiferente, ora com um gesto de fastio... Fastio por quê? D. Leocádia tremia de raiva. Não podia ir ter com ela, nem queria; entretanto, a raiva ardia-lhe no coração. Tinha ímpetos, que sufocava, e olhava para outro lugar, para a porta da sacristia, a ver se o padre...

Mas a missa não vinha. D. Leocádia gastava três, quatro minutos, sem olhar para elas. Depois, vinha-lhe um certo desejo de ver se ainda a fitavam, e pouco a pouco, disfarçadamente, voltava a cabeça. Dava com elas, que faziam a mesma coisa, e o coração sangrava-lhe aos golpes de uma unha invisível... Pobre incorrigível! Era a unha do diabo. Levantou-se exaltada, e saiu pela porta fora. Não achava a paz, porque a guerra estava nela perpetuamente.

                                       
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In A Estação, Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 1884, p. 105.



REFERÊNCIAS:
FUENTES, Carlos. Geografia do Romance. Tradução de Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1993, p. 51.
BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio e LINS, Álvaro. 'Roteiro Literário de Portugal e do Brasil'. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, vol. II, 1966, p. 137.
FIGUEIREDO, Guilherme. Cobras e lagartos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 57.



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