17 de fev de 2014

[Crônica] RUBEM BRAGA – Ao crepúsculo, a mulher...


     – PEDRO LUSO DE CARVALHO

A paixão de Rubem Braga, que veio da adolescência (escrevia para um jornal de sua cidade), fez com que não exercesse atividades ligadas ao Direito, em que se formou. Sua atividade como jornalista é prova suficiente de que fez a escolha correta. Escreveu para vários jornais onde residiu (São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro).
Fora de nosso país, Rubem Braga fez importantes reportagens na Argentina, em 1946, nos Estados Unidos, em 1956. Nos anos de 1944-1945 foi correspondente na Europa, onde fez a cobertura sobre a Segunda Guerra Mundial para o Diário Carioca. Viveu no México, Portugal, Itália, Inglaterra, França, Grécia, Angola, Moçambique e África do Sul, de onde enviava suas reportagens para jornais brasileiros.
Rubem Braga nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, a 12 de janeiro de 1913, e faleceu no dia 12 de janeiro de 1990.
Segue a crônica de Rubem Braga, intitulada  Ao crepúsculo, a mulher... (In Rubem Braga. Livro vira-vira 1. Rio de Janeiro: BestBolso, 2011, p. 474-475):

    AO CREPÚSCULO, A MULHER...
        – RUBEM BRAGA

Ao crepúsculo a mulher bela estava quieta, e me detive a examinar sua cabeça com atenção e o extremado carinho de quem fixa uma flor. Sobre a haste do colo fino estava apenas trêmula; talvez a leve brisa do mar; talvez o estremecimento do seu próprio crepúsculo. Era tão linda assim, entardecendo, que me perguntei se já estávamos preparados, nós, os rudes homens destes tempos, para testemunhar a sua fugaz presença sobre a terra. Foram preciso milênios de luta contra a animalidade, milênios de milênios de sonho para se obter esse desenho delicado e firme. Depois os ombros são subitamente fortes, para suster os braços longos; mas os seios são pequenos, e o corpo esgalgo foge para a cintura breve; logo as ancas readquirem o direito de ser graves, e as coxas são longas, as pernas desse escorço de corça, os tornozelos de raça, os pés repetindo em outro ritmo a exata melodia das mãos.
Ela e o mar entardeciam, mas,  a um leve movimento que fez, seus olhos tomaram o brilho doce da adolescência, sua voz era um pouco rouca. Não teve filhos. Talvez pense na filha que não teve... A forma do vaso sagrado não se repetirá nestas gerações turbulentas e talvez desapareça para sempre no crepúsculo que avança. Que fizemos desse sonho de deusa? De tudo o que lhe fizemos só lhe ficou o olhar triste, como diria o pobre Antônio, poeta português. O desejo de alguns a seguiu e a possuiu; outros ainda se erguerão como torvas chamas rubras, e virão crestá-la, eis ali um homem que avança na eterna marcha banal.
Contemplo-a... Não, Deus não tem facilidade para desenhar. Ele faz e refaz sem cessar Suas figuras, porque o erro e a desídia dos homens entorpecem Sua mão: de geração em geração, que longa paciência Ele não teve para juntar a essa linha do queixo essa orelha breve, para firmar bem a polpa da panturrilha. Sim, foi a própria mão divina em um momento difícil e feliz. Depois Ele disse: anda... E ela começou a andar entre os humanos. Agora está aqui entardecendo; a brisa em seus cabelos pensa melancolias. As unhas são rubras; os cabelos também ela os pintou; é uma mulher de nosso tempo; mas neste momento, perto do mar, é menos uma pessoa que um sonho de onda, fantasia de luz entre nuvens, avideusa trêmula, evanescente e eterna.
Mas para que despetalar palavras tolas sobre sua cabeça? Na verdade não há o que dizer; apenas olhar, olhar como quem reza, e depois, antes que a noite desça de uma vez, partir.


Abril, 1956

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