3 de ago de 2014

[Conto] CARLOS CARVALHO – Missa do Galo



  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CARLOS CARVALHO (1939 - 1985), poeta, contista e dramaturgo gaúcho, natural de Porto Alegre, legou-nos entre outras obras, Calendário do medo, livro de contos da melhor qualidade, com o qual o autor foi premiado no Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná - FUNDEPAR.
Segue o conto de Carlos Carvalho intitulado Missa do galo (In Carlos Carvalho/ Calendário do medo. 3ª ed. Porto Alegre: Editora Movimento, 1975, p. 45-46):

     
MISSA DO GALO
– CARLOS CARVALHO
                                                                                                     

Com a navalha no bolso, esperou a mulher na porta da igreja. Quando ela apareceu, foi se chegando, pegou no braço dela e disse:
– Quero falar contigo, Maria.
Ela não respondeu, Puxou o braço e foi caminhando. Ele insistiu:
– Volta, Maria.
Ela parou no primeiro degrau. Olhou-o, antes de responder, e ele sentiu vergonha da roupa amassada, da gravata puída, da barba de dias.
– Não adianta, Justino, já disse.
– Não gostas de mim?
– Gosto.
– Então volta, Maria.
– Não adianta, Justino, não adianta.
Continuou a caminhar. Ele seguiu:
– Pensa nas crianças.
– Já pensei.
– Pensa em mim.
– É só o que faço.
Então volta, Maria. Juro que vai ser diferente. Prometo que não boto bebida na boca, largo tudo, juro.
– Das outras vezes foi a mesma coisa.
– Agora é diferente. Tenho até promessa de emprego, coisa firme, segura. Dá um bom dinheiro. A gente aluga uma casinha...
– Não adianta.
Ele tremia, as lágrimas enchendo os olhos:
– Hoje é Natal, Maria, não tens pena de mim?
– Tenho, muita.
Procurou o lenço no bolso e encontrou o cabo frio da navalha.
– Então volta, Maria. Ou acabo fazendo uma besteira.
Ela apressou o passo. Tentou alcançá-la, a mão suada apertando o cabo da navalha.
– Não me obriga a fazer uma desgraça.
Sem diminuir o passo, ela olhou a navalha agora aberta na mão dele.
– Adeus, Justino.
E sumiu na esquina.
Ele se apoiou num muro e chorou muito. Depois, entrou num bar e se embebedou. Antes que o galo cantasse pela terceira vez, negociou a navalha para pagar a bebida.


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