28 de dez de 2013

[Crônica] RUBEM BRAGA – Madrugada




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

RUBEM BRAGA nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, a 12 de janeiro de 1913, e faleceu no dia 12 de janeiro de 1990. É considerado por muito críticos o maior cronista brasileiro, depois de Machado de Assis.
Como a biografia de Rubem Braga não cabe neste pequeno espaço, limitamo-nos a estas linhas: Formou-se em Direito, mas decidiu-se pelo jornalismo, paixão que vinha de sua adolescência, quando escrevia para um jornal de sua cidade. Mais tarde, escreveu para jornais onde residiu: São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro.
Fora de nosso país, Rubem Braga fez importantes reportagens, como a cobertura da primeira eleição de Perón, na Argentina, em 1946, e da segunda eleição de Eisenhower, nos Estados Unidos, em 1956.
Nos anos de 1944-1945 acompanhou a Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial, escrevendo suas reportagens para o Diário Carioca.
Rubem Braga também trabalhou para jornais brasileiros com suas reportagens feitas nestes países: México, Portugal, Itália, Inglaterra, França, Grécia, Angola, Moçambique e África do Sul.
Exerceu o cargo de Embaixador do Brasil em Marrocos, na África, no período de 1961 a 1963. Depois de demitir-se do cargo, fundou com alguns sócios a Editora do Autor, e de 1967 a 1971 foi sócio da Editora Sabiá.
Quando residiu no Rio de Janeiro o cronista escreveu para jornais e revistas e trabalhou no jornalismo da TV-Globo.
Segue a crônica de Rubem Braga, intitulada Madrugada (In Braga. Rubem. O verão e as mulheres. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1986, p. 25-27:
   


               MADRUGADA
       
                         – Rubem Braga


Todos tinham-se ido, e eu dormi. Mesmo no sonho, me picava, como um inseto venenoso, a presença daquela mulher. Via os seus joelhos dobrados; sentada sobre as pernas, na poltrona, descalça, ela ria e falava alguma coisa que não podia perceber, mas era a meu respeito. Eu queria me aproximar; ela e a poltrona recuavam, passavam sob outras luzes que brilhavam em seus cabelos e em seus olhos. 
E havia muitas vozes, de homens e de outras mulheres, ruídos de copos, música. Mas isso tudo era vago: eu fixava a jovem mulher na poltrona, atento ao jogo de sombra e luz em sua testa, em sua garganta, nos braços: seus lábios moviam-se, eu via os dentes brancos, ela falava alegremente. Talvez fosse alguma coisa dolorosa para mim, eu ouvia trechos de frases, mas ela estava tão linda assim, sentada sobre as pernas, os joelhos dobrados parecendo maiores sob o vestido leve, que o prazer de sua visão me bastava; uma luz vermelha corou seu ombro esquerdo, desceu pelo braço como uma carícia, depois chegou até o joelho. Eu tinha a ideia que ela zombava de mim, mas ao mesmo tempo isso não me doía; sua imagem tão viva era toda minha, de meus dois olhos, e isso ela não me negava, antes parecia ter prazer em ser vista, como se meu olhar lhe desse mais vida e beleza, uma secreta palpitação.
Mas agora todos tinham sumido. Ergui-me, fui até a varanda, já era madrugadinha. Sobre o nascente, onde a barra do dia ainda era uma vaga esperança de luz, havia nuvens leves, espalhadas em várias direções, como se durante a noite o vento tivesse dançado no ar. Depois, aos poucos, foi se acendendo um carmesim, e sob ele o mar se fez quase verde. Eu ouvia a pulsação de um motor; um pequeno barco preto passava para oeste, como se quisesse procurar as sombras e precisasse pescar na penumbra. Imaginei a faina dos homens lá dentro, tomando café quente na caneca, arrumando suas redes, as mãos calosas puxando cabos grossos, molhados, frios, as caras recebendo o vento da madrugada no mar, aquele motor pulsando como fiel coração. Duas aves de asas finas vieram de longe, das ilhas, passaram sobre meu telhado, em direção às montanhas. De longe vinha um chilrear de pássaros despertando.
Dentro de casa, no silêncio, parecia ainda haver um vago eco de vozes que tinha falado na noite: os móveis e as coisas ainda respiravam a presença de corpos e mãos. E a poltrona abria os braços, esperando recolher outra vez o corpo da mulher jovem. Apaguei as luzes, fiquei olhando o mar que a luz nascente fazia túmido. Uma brisa fresca me beijou. E havia um sossego, uma tristeza, um perdão, uma paciência e uma tímida esperança.

             Fevereiro, 1953


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