3 de jun de 2012

CLARICE LISPECTOR – Perto do Coração Selvagem


             
             por  Pedro Luso de Carvalho


        Sempre que possível, ocupo-me de temas sobre a Clarice Lispector, quer escrevendo sobre ela e sua obra, quer transcrevendo alguns de seus contos. Desta vez dou enfoque  ao trabalho de crítica literária que Guilherme Figueiredo (1915-1997)  escreveu a 23 de janeiro de 1944, sobre  Perto do coração selvagem, romance de estréia de Clarice Lispector, em 1943.

        Apenas para situar Guilherme Figueiredo,  escritor, poeta, crítico de teatro e de música, cabe ser mencionado que escreveu, entre outros livros: (poema)  Um violino na sombra (1936); (romances)  Trinta anos sem paisagem, 1935; Viagem, 1955; O outro lado do rio, 1961; Tilsitt, 1975; (conto) Papai Noel para gente grande,  1976; (ensaios) Como escrever peças de teatro, 1973;  Cobras e lagartos, 1984. 

        Voltamos a Clarice Lispector, sobre quem muito já se escreveu, como certamente muito ainda será escrito, já que se trata de um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, como ficou demonstrado a partir de Perto do coração selvagem, que lhe propiciou receber o prêmio de melhor romance de estréia, pela Fundação Graça Aranha,  em outubro de 1944.

        Guilherme Figueiredo dá ao seu ensaio, sobre o livro  Perto do coração selvagem, este título: O SENTIMENTO DA PALAVRA (In  Figueiredo,  Guilherme. Cobras e lagartos Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984, p. 116-121). Abre o seu ensaio com um fragmento do dessa obra, como segue:

        “É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, seio-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo  o que sinto como o que sinto se transforma lentamente  no que eu digo... E cada vez mais se adensavam os sonhos e adquiriam cores difíceis de se diluir em palavras... É necessário certo grau de cegueira para poder enxergar determinadas coisas. É essa talvez a marca do artista. Qualquer homem pode saber mais do que ele e raciocinar com segurança, segundo a verdade. Mas exatamente aquelas coisas escapam à luz acesa. Na escuridão tornam-se fosforecentes... Eu me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando, mas usando de uma nova modalidade de respirar”.

        Depois dessa transcrição, Guilherme Figueiredo diz que colheu essas frases do livro 'Perto do coração selvagem' porque elas “exprimem na palavra de sua autora a sua própria maneira  de expressão que, é preciso dizer desde logo, se situa dentro da linguagem mais artística, mais difusamente poética de quantas já se tenham  apresentado as nossas escritoras”.

         O ensaísta lembra então que Clarice Lispector é uma estreante. E que antes desse seu livro de estréia publicou pequenos contos em revistas; e sobre tais contos, friza que eram “indicativos da qualidade maravilhosamente poética de sua prosa.”  Para Guilherme Figueiredo a boa qualidade da prosa da escritora é exibida com maior força e com “estonteante riqueza verbal, o sabor lentamente degustado das palavras e das sílabas, a capacidade de mergulhar  nelas até perderem o contorno de coisas, para receberem uma aura vaga e irreal. 
       
        Na sequência de seu ensaio O sentimento da palavra, Guilherme Fiqueiredo passa a analisar um outro ângulo da prosa de Clarice Lispector, realçando que a escritora não é descritiva, com a ressalva de que não se socorre desse recurso simplemente porque não quer usá-lo, não porque para isso lhe falte recursos.

        O ensaísta lembra também que “O sentimento da palavra” traz ótimos pomenores visuais, “onde a autora quase sempre mostrou  uma estupenda capacidade de miniaturista, e essa faculdade ao mesmo tempo tão simples e tão difícil de fundir o real, o exterior, com uma introspecção quase sempre mais poética do que psicológica”. 
     
        O ensaísta dá realce ao fato de que  a romancista não quer descrever, acrescentando que “O prosaico das cenas não a contenta, como não contentava a Paul Valéry, que confessava  a sua impossibilidade de se deter diante do papel para grafar a banalidade cotidiana das vidas. Clarice Lispector evita descrever, e isto desloca o seu livro de modo bastante sensível, da categoria de romance em que o rotulou, para uma outra, de entretons poéticos gidianos, do Gide de Paludes e de Voyage d'Urien”. 

        Adiante, Guilherme Figueiredo escreve sobre de como Clarice Lispector sentia-se próxima de James Joyce, tanto que dele retirou a epígrafe para o título ao livro:'Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do coração selvagem da vida'. Para o  ensaísta, tudo o que se passa em  “O sentimento da palavra” pertence ao interior das personagens, “ou melhor, ao inteiro da personagem Clarice Lispector”. Ele não trata a obra, à vista dessa singularidade, como sendo um romance, no sentido em que é conhecido esse gênero. 

        No tocante à singularidade da forma de 'Perto do coração selvagem', diz que “A distribuição da autora dentro de cada uma das figuras é visível, mas é forçoso acenturar que isto não constitui defeito, porque não há a tirania sobre as personagens, mas um feitio próprio de cada uma delas fotografado em linguagem poética pelo feitio da autora. (...) O cuidado em gravar não o acontecimento, mas o eco interior de cada acontecimento, seduz muito mais Clarice Lispector, verdadeira apaixonada disto que os maus poetas tanto desmoralizam: 'o estado d'alma', esse lugar-comum que aqui se revaloriza e se prestigia”.

       Para o Guilherme Figueiredo, o estado d'alma “não é, para  Clarice Lispector, um pretexto para procurar temas sobre os quais poderia versar linda e indefinidamente. É, em 'Perto do coração selvagem', uma condição intrínsica do livro. Ele não existe quase como história, e à sua última página pergunta 'Que aconteceu?' ficaria por assim dizer sem resposta. Mas... que aconteceu no final de Ulysses? Que aconteceu em dezenas de páginas de Proust? Que aconteceu enquanto estamos perto do coração selvagem? Aconteceu esta coisa estupenda, esta coisa terrivelmente sedutora e perigosa: encontramos a palavra com que explicar os nossos sentimentos e pensamentos inexplicáveis.

        Explicar? – pergunta-se Guilherme Figueiredo, referindo-se aos nossos sentimentos e pensamentos. Responde que não é bem explicar. “Não intuímos, não deduzimos. Apenas recebemos a revelação de que o mundo das coisas inexplicáveis pode receber um sopro através do qual as palavras forneçam um continente para o conteúdo de estados d'alma. Diluir em palavras os sonhos, as sensações, aproximar a distância imensa que vai  entre a nossa sensibilidade pura e o pobre material que usamos  para exprimi-la - aqui está a dificuldade que Clarice Lispector venceu, conquistando com seu livro um posto de relevo em nossas letras”.

        Depois de ter frizado que o romance de Clarice Lispector não é descritivo e que nos pormenores visuais que usa, com sua capacidade de miniaturista para fundir o real, o exterior, com introspecção quase mais poética que psicológica, cuja história Guilherme Figueiredo diz relutar sempre “em dar aqui à palavra romance o seu sentido vulgar”, pergunta-se: “Que importa esteja perdido o conceito de 'romance'?” e Logo explica: “Ele (conceito) apenas se substitui por outro, em que, em vez da vida, é o sentimento da vida o que nos procura e no segreda o seu mistério através de poesia, poesia e poesia”.

        Guilherme Figueiredo conclui o seu ensaio sobre o livro de Clarice Lispector, 'Perto do coração selvagem', fazendo menção ao caráter artístico da obra, motivo pelo qual “pode servir como um exemplo da vontade de fazer obra de arte. Se me fosse permitido aconselhar este livro a alguém – pondera o crítico -, eu o aconselharia aos que escrevem e aos que pretendem escrever, porque através dele se sente uma dignidade artística reconfortante, quando se nota ao redor tanta gente que apenas se diverte com as palavras”.



                                                                                                  (23.01.44)


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