6 de abr de 2012

BALZAC & TOLSTÓI – Parte II

Honoré de Balzac
                                 
     
     
               por  Pedro Luso de Carvalho 
             
    
     Nenhuma obra domina o seu criador ao ponto de sugerir que ela o gera, escreve Gaëtan Picon. Existem muitos escritores que sentimos superiores à sua obra ou, pelo menos, ao mesmo nível dela. Diz que Flaubert era mais do que seus romances. Afirma que Tolstói e Dostoiévski viveram a sua verdade como suas personagens a viveram. Mas Balzac? Parece que ele tirou sua obra não de si próprio, mas que ela o atraiu para si – responde; e mais, “que ele não foi o oleiro que modela o vaso de argila, mas o espaço vazio que só toma forma entre suas paredes.”

        Gaëtan Picon fala de como foi tão extensa, tão complexa e tão contraditória a obra de Balzac, povoada que é de personagens tão diferentes, e que abarca regiões tão afastadas umas das outras; e se pergunta como o poeta tiraria de si próprio a disparidade desse imenso universo. Assim se refere o crítico ao poeta-romancista: “Se por muito tempo foi dado a Balzac o mérito de haver criado o romance de observação realista, os seus melhores romances sempre revelaram o que nele havia de poeta.”

        Bourget chama Balzac de “visionário analítico”. Hofmannsthal manifestou-se sobre Balzac, dizendo: “aquela imaginação transbordante e de uma riqueza infinita, a mais fértil e a mais densa imaginação criadora que jamais existiu desde Shakespeare”. 

        Balzac costumava atribuir a si, como o único mérito, ter feito um gigantesco inventário. 'A comédia humana': só o título já implica uma distância, sugere que Balzac é espectador, que ele se abstém de tomar partido e descreve o mundo tal como ele é, frisa Gaëtan Picon. O crítico pergunta a si próprio: “inventário ou magia? Seja como for, parece que essa obra é exterior à unidade e às opiniões preconcebidas da personalidade, parece que ela nasce como se fora de si mesma.”

        Gaëtan diz que não é à toa que Brunetière pôde ver nela o exemplo da impessoalidade artística; Brunetière escreve: “O caráter mais evidente da sua obra é justamente a objetividade. Seus romances não são a confissão de sua vida; e a escolha de seus temas jamais lhe foi ditada por razões particulares e, de algum modo, privadas [...] Não é de si que ele fala, nem a si que ele explica [...] Não é Balzac quem escolhe o seu tema, mas são seus temas que o dominam, por assim dizer, e se impõem a ele.”

        Distância que as manifestações do homem sugerem ainda mais... Uma obra tão profunda, tão distinta, e um homem tão terra-a-terra, um tanto vulgar, grosseiro? São afirmação e pergunta, ao mesmo tempo, de Gaëtan Picon. O crítico lembra o que Balzac disse de si a Clara: “Cá entre nós, não sou profundo, mas muito grosseiro.” (A Clara Mafféi, novembro de 1838.)

        Sobre Tolstói, que por sua vez teve uma abordagem do conceituado crítico norte-americano, Harold Bloom, em sua festejada obra Cânone Ocidental: “Críticos têm enfatizado que seus romances e contos retratam o familiar com tal estranheza que tudo parece recém cunhado. O que Nietzsche chamou de o poema da humanidade, o cosmos como concordamos vê-lo, é reperspectivizado por Tolstói.”

        Tolstói deu uma irremediável guinada em sua vida, quando passou a condenar a injustiça social em seus país, principalmente depois que deixou de escrever os seus romances, para, na altura dos seus cinquenta anos, voltar-se para a religião e tentar, em vão, fazer uma mudança da Igreja Ortodoxa Russa, no sentido de que esta passasse a transmitir os ensinamentos cristãos, rigorosamente como está no Evangelho, e não distanciado dele, como vinha ocorrendo, na época. E o que mais tarde viria chamar-se tolstoísmo fracassaria nos lugares em que pessoas que seguiam as ideias de Tolstói, fundaram colonias, convencidas que estavam na negação da propriedade.
       
        Sobre essas crenças do escritor, escreve Harold Bloom: “Mas será que importam as crenças de Tolstói – morais, religiosas, estética? Se a pergunta se refere à crenças em si, a resposta seria positiva em termos do passado, quando havia tantos tostoianos, mas não agora, quando ele tem de ser lido em companhia de Homero, da Javista, de Dante e Shakespeare, como talvez o único escritor desde o Renascimento que pode desafiá-los. Como ele ficaria infeliz com esse destino; considerava-se mais um profeta que um contador de histórias.”

        Na próxima postagem, continuaremos com Balzac & Tolstói. [Para acessar a primeira parte deste trabalho, clicar em BALZAC & TOSLTÓI – Parte I].




REFERÊNCIA:
PICON, Gaëtan. Balzac. Tradução de Maria Alice Lúcia Autran Dourado. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.
BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental: Os livros e a escola do tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.


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