15 de mai de 2015

[Conto] DALTON TREVISAN – O Sentimento


  – PEDRO LUSO DE CARVALHO

DALTON TREVISAN é considerado por parte da crítica como o melhor contista brasileiro contemporâneo; para uma outra corrente Rubem Fonseca é colocado ao lado de Trevisan, ou mesmo à sua frente. Tenha razão esta ou aquela corrente da crítica literária, o certo é que ambos os escritores representam, com sobra de talento, a narrativa curta de nosso país; são eles  os principais expoentes desse gênero da literatura. Como não sou adepto desse tipo de escolha, juntaria a esses dois nomes, outros igualmente importantes, como, por exemplo, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, João Guimarães Rosa (deixo de mencionar o mestre Machado de Assis porque a menção que faço sobre o conto restringe-se aos contistas contemporâneos, friso).
Segue o conto O Sentimento, de Dalton Trevisan, que integra o livro A trombeta do anjo vingador  (In Trevisan, Dalton. A trombeta do anjo vingador. 3ª ed.  Rio de Janeiro: Record, 1981, p. 97-99):


O SENTIMENTO
– DALTON TREVISAN

  
Então, nhá Maria, que aconteceu?
João de pé, a mão na cadeira. Ela sentada, boquinha pintada em coração. No joelho, a caçula de cinco anos, olhinho arregalado.
– Eu tenho um sentimento.
– É certo o que ele se queixa? A senhora de noite não quer?
– Ele está fracão, sargento. Quer que eu deixe forte.
– Não minta, mulher.
– E a história das duas calças?
– Nem todo dia a gente está boa. Sabe o que ele fez? Picou todinha com a tesoura. De ciúme não quer que eu use calça comprida. Olhe a minha perna, sargento.
Debaixo do vestidinho o cascão escuro do sol.
– Essa aí deixa o arroz em cima do fogão. E vai tomar mate com a irmã.
– Não se pode mais passear? Ele volta da roça, meio bêbado, me toca de casa. Manda eu ir com outro. Quando esperava esse anjinho...
De tanto tossir a menina perdia o fôlego.
– ... me deu um soco na barriga.
– Ah, é? Conte do baile para o sargento.
– Se alguém convida, a gente não nega. É festinha de domingo.
– Um casal de velhos, dona Maria. Com oito filhos. Discutindo por bobagem.
– A ideia do sargento só tenho a gabar. Na mesma casa, cada um no seu canto. Desmanchar o ranchinho não quero. Sabe o que disse? Que era uma vagabunda. Não me respeita?
– Ele está fracão, sargento. Começa a bater na gente para ficar forte. Só judiando de mim ele consegue.
– Passar a mão não é bater, seu João.
– Agora eu sei o que é a lei, sargento.
– Em negócio de boca não me fio. Quero um papel do sargento. Bem capaz, esse aí, de arruinar o trato.
– Termo de bem-viver? Não carece, dona Maria.
– Ele faz muito estropício. Onde cuspo eu não lambo. Esse aí, não. Se abaixa e come do chão.
– Agora podem ir. Cuidar dos filhos.
– O sentimento eu guardo.
– Sentimento a gente perdoa, não é, sargento?
E o pobre ostentou os dois caninos solitários.
Dona Maria acudiu:
– O meu está no coração. Eu morro com ele.
Mais um safanão na menina:
– Dê louvado para o sargento.
Mão posta, unhinha preta, tossindo.
– Deus te abençoe, minha filha.



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