30 de jun de 2014

[Crônica] LUIS FERNANDO VERISSIMO – A comadre




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO, um dos escritores brasileiros mais importantes, nasceu em Porto Alegre, em 1936. No ano de 1969 o jornal Zero Hora, começa a publicar as suas crônicas. Nesse mesmo ano começou a trabalhar para a MPM Propaganda, como redator de publicidade. Mais tarde suas crônicas são publicadas nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Zero Hora.
Publicou algumas dezenas de livros: O popular (J.Olympio, 1973), Ed Mort e outras histórias (L&PM, 1979), O analista de Bagé (L&PM, 1980), A velhinha de Taubaté (L&PM, 1983), Aventuras da Família Brasil (quadrinhos, L&PM, 1985), O marido do doutor Pompeu  (L&PM, 1987), O suicida e o computador (L&PM, 1992), Comédias da vida privada (L&PM, 1994),  Américas (Artes e Ofícios, 1994), entre outros.
L. F. Veríssimo foi homenageado com o Prêmio Scopus pela Sociedade Brasileira de Amigos da Universidade Hebraica de Jerusalém, em novembro de 2011, em evento no Buffet França, em São Paulo. A honraria foi entregue ao escritor por Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras.
Segue o conto A comadre, de Luis Fernando Veríssimo (In O marido do doutor Pompeu/Luis Fernando Verissimo. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1987, p. 119-120):

A COMADRE
– LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


O veraneio terminou mal. A ideia dos dois casais amigos, amigos de muitos anos, de alugarem uma casa juntos deu errado. Tudo por culpa do comentário que o Itaborá fez ao ver Mirna, a comadre Mirna, de biquíni fio dental pela primeira vez. Nem tinha sido um comentário. Mas um som indefinido.
– Omnahnmon!
Aquilo pegara mal. A própria Mirna sorria sem jeito. O compadre Adélio fechara a cara, mas decidira deixar passar. Afinal era o primeiro dia dos quatro na praia, criar um caso naquela hora estragaria tudo. Eram amigos demais para que um simples deslize – o som fora involuntário, isto era claro – acabasse com tudo. E, ainda por cima, a casa já estava paga por um mês.
Naquela noite, no quarto, a Isamar pediu satisfação ao marido.
– Pô, Itaborá. Qual é?
– Não pude controlar, puxa.
– Na cara do Adélio!
– Eu sei. Foi chato. Mas saiu. Que eu posso fazer?
– Nós conhecemos a Mirna e o Adélio há o quê? Quase dez anos.
– Mas eu nunca tinha visto a bunda da Mirna.
– Ora, Itá!
– Não entende? A gente pode conviver com uma pessoa dez, vinte anos, e ainda se surpreender com ela. A bunda de Mirna me surpreendeu, é isso. Me pegou desprevenido.
– Vai dizer que você nunca nem imaginou como era?
– Nunca. Juro. Nem me passou pela cabeça. E de repente estava ali, toda. Toda ali.
– Pois vê se te controla.
Pelo resto do veraneio o Itaborá fez questão de nem olhar para o fio dental da comadre. Quando os quatro iam para a praia, se apressava para caminhar na frente. Se por acaso as nádegas da comadre passassem pelo seu campo de visão, olhava para o alto, tapava o rosto com o jornal, assobiava.
Um dia, o Itaborá e o Adélio sentados no quintal, a Mirna recém-servira a caipirinha, de biquíni, e se dirigia de volta para casa, e o Itaborá suspirou.
– O que foi – perguntou o Adélio, agressivo.
– Essa política econômica – disse o Itaborá. – Sei não. Não levo fé.
– Ah – disse o Adélio.
Até o fim do veraneio ficou aquela coisa chata entre os quatro. O Itaborá não podia tossir que todos o olhavam, desconfiados.



   *  *  *