16 de abr de 2012

BALZAC & TOLSTÓI – Parte III

                


                      por Pedro Luso de Carvalho

       
       No seu ensaio sobre Balzac e Tolstói, André Maurois (op.cit.) fala do caráter difícil de Tolstói e de sua inclinação para o sofrimento, embora tenha experimentado momentos de uma felicidade completa, “uma felicidade assustadora”, como escreveu o escritor russo, no início de seu casamento. Sobre essa nova vida, diz Maurois: “Mais tarde seu lar foi espicaçado, a família dividida, e o transtornou o conflito entre suas idéias e o seu tipo de vida”. No entanto - prossegue Maurois -, Tolstói “fora marcado pelas alegrias de um casal jovem e de uma família numerosa que nenhum cuidado material preocupa”.

        No que respeita a carreira literária de Tolstói, já no seu início deparou-se com o sucesso. Os críticos e os romancistas já conhecidos, dentre eles Turgueniev, receberam o jovem escritor como um mestre. A partir de seu romance Guerra e Paz é o grande escritor da terra russa, o primeiro, diz Maurois, numa época em que a literatura de seu país impressiona pela riqueza.

        Na literatura Balzac também terá em toda a Europa um imenso público, pondera Maurois, “mas não chegará em vida a ser aceito pela crítica séria. Em parte por causa de seu modo de viver, em parte por seu aspecto físico. Um pouco por produzir muito, um pouco por confessar suas necessidades de dinheiro, um pouco enfim por tratar de temas que os delicados consideram insólitos, não o colocam no mesmo plano dum Hugo ou dum Vigny.” Balzac sabia que, à vista de sua exuberante obra, não era tratado com justiça pela crítica e pelo público.

        No que respeita ao aspecto físico de Balzac, como se refere Maurois, diz Christiane Zschirnt, em sua obra Livros: Balzac era gordo como Falstaff. Mas essa não é a única característica do francês que lembra personagens das tragédias de Shakespeare. Balzac dá a impressão de que Falstaff – o desmedido e bebedor e comilão que persegue alegres mulheres de Windsor – ressucitou numa forma uma pouco mais civilizada na França do século XIX”. 
       
        Christiane Zschirnt lembra que Balzac personificava uma inesgotável energia, que se apresentava com muita vitabilidade. Era barulhento e eloquente; parecia gostar da ostentação; do bom vinho e da boa comida mais ainda; também era afeito a frequentes aventuras amorosas, e quase sempre suas escolhas recaíam sobre senhoras que pertenciam aos melhores circulos da sociedade parisiense.
       
        Tolstói, por sua vez, considerava-se velho e feio aos trinta e quatro anos, diz Boris Schnaideman; e achava às vezes que nenhuma mulher haveria de querê-lo para marido. Mesmo assim - prossegue Schnaideman -, em 1862, após um romance fracassado com outra jovem, pediu em casamento Sófia Andréieva Behrs, que tinha então dezoito anos. O casamento se efetivou em setembro. Sófia não era uma moça fútil da sociedade, mas uma pessoa com personalidade forte, e não destituída de ambições. Segundo suposição de Górki, teria sido graças a conversas com ela que Tolstói pôde captar certas particularidades muito sutis do mundo interior da mulher.

        Aos cinquenta anos - diz James Mason -,Tolstói era rico, estimado, famoso, defrutava de saúde invejável, podendo trabalhar no campo dez horas seguidas, como qualquer camponês. Dá-se conta de que sua vida havia estacado. Não tinha mais desejos. Para ele sua vida era uma insanidade. No abismo em que se encontrava, via a morte como solução para seu problema existencial. Como pensava em suicídio, deixou de ir à caça, temeroso que estava de voltar a arma contra si próprio. Nessa altura de sua vida, diz Mason, a família e a arte não mais lhe eram suficientes.

        Por outro lado, se é verdade que por necessidade Balzac teve que publicar vários romances por ano, como de fato era, também é verdade que se não estivesse premido pela pobreza não teria escrito a Comédia Humana; como também é verdade que sentia a necessidade de se fazer digno de admiração pelos seus confrades, que, inexplicavelmente, recusavam-se de dar-lhe o valor que efetivamente tinha e merecia. E foi justamente por causa de sua pobreza, como pela recusa do reconhecimento de seu talento, que criou como nenhum outro o fez, dois ou três mil personagens, fazendo-os reaparecer de romance em romance.

        Na luta que o escritor trava para compensar a injustiça da sorte, como ocorria tanto com Balzac como com Tolstói, assim sentencia Maurois: “As maiores obras nascem dos maiores sofrimentos. As lutas de multidões em Guerra e Paz e as lutas de sentimentos em Ana Karênina estão envoltas numa atmosfera de angústia que é aquela em que vive Tolstói. É quando se perderam muitas iluzões que se escreve Ilusões Perdidas; é quando Balzac, vendo a Sra. de Berny à morte, evoca o que ela foi para ele e já nunca mais será, que compõe O Lírio do Vale. Um ciúme louco gerou a Sonata a Kreutzer, como o furor dum amante decepcionado A duquesa de Langeais.

        Na próxima postagem prosseguiremos com este texto sobre esses dois monumentos da Literatura Universal. Para acessar a sua primeira parte, clicar em  BALZAC & TOLSTÓI – Parte I




REFERÊCIAS:
SCHINAIDERMAN, Boris. Tolstói. São Paulo: Brasiliense, 1983.
MASON, Jaime. Mestres da Literatura Russa. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995. 
MAUROIS, André. De Aragon a Montherlant. Tradução de Paulo Hecker Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1967.
ZSCHIRNT, Christinae. Livros. Tudo o que você não pode deixar de ler. Tradução de Claudia Abeling. São Paulo: Editora Globo, 2006.

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