11 de jul de 2014

[Conto] CYRO MARTINS - Guri




– PEDRO LUSO DE CARVALHO

CYRO MARTINS (Cyro dos Santos Martins) nasceu a 5 de agosto de 1908, em Quaraí, RS; faleceu a 15 de dezembro de 1995, em Porto Alegre. O escritor  enriqueceu sua prosa com a experiência que colheu na sua cidade natal, Quaraí, nas suas próprias vivências, desde muito cedo, antes de mudar-se para Porto Alegre.
Esse conhecimento do homem do campo foi a base para a sua ficção, além de poder contar com a sua vivência na área médica, em especial na psiquiatria e na psicanálise. A soma desses dois fatores, o conhecimento da vida campeira e a experiência profissional com a psicanálise, facilitou-lhe a construção de personagens fortes e, por assim dizer, reais. Na sua ficção – romance e conto – construiu suas personagens com texto enxuto.
O livro de contos Campo Fora foi a estreia de Cyro Martins, em 1934. Sobre essa obra, escreveu Guilhermino Cesar, escritor e crítico literário: "Campo Fora trouxe ao gênero uma perspectiva social que todos os seus críticos têm valorizado; e sob este ângulo é que, no futuro, será ainda lembrado, quando todas as 'modas' de hoje estiverem esquecidas. Mas, a meu ver, há nele um traço que o singulariza entre seus companheiros, tão importante, afinal, como sua temática: o modo de narrar”.
Segue o conto Guri, de Cyro Martins (In Campo fora/Cyro Martins. 5ª ed. Porto Alegre: Editora Movimento, 1991, p. 30-31):

        GURI
– CYRO MARTINS


Pstiu, caalo!
O pingo, bagual novo, se parara arpista com o rebuliço, instigando o ginete para uma escaramuça. Espantado, fogoso, cabeça erguida, trocando orelha, olhando longe, era um urso de grande o pangaré de Nilo.
– Cuidado, rapaz, que esse animal é velhaco.
– Não deixei as pernas em casa.
O guri, de ouvir, já sabia responder.
E não cansava de pular proezas, agachado no cavalo de sarandi, com uma tira de pano, que era a cola, quebrada em cacho de três galhos bem em cima, onde canta o galo e os cuscos não alcançam.
– Volta, volta, boi!
Batendo as aspas pontudas no atropelo da disparada xucra, a novilhada estralava os cascos duros num estrondo, como chuva de pedra, no chapadão raso como uma tábua.
Gritaria. Agachadas. Guascaços puxados. Sofrenaços. Esbarradas compridas assinalando no chão a marca da sua violência. Tiros de laço, largados com maestria uns, e outros guampeando as macegas normais. Rodadas feias. Silvos de boleadeiras pelo ar. E cavalos correndo soltos com arreios.
Um lote grande se cortou rumando o aramado. Na ponta, embora bem montado, o Ricardo, solito, não podia sujeitá-lo.
E se aproximavam ligeiro da cerca, que estava bem de pé, estirada, e era toda de madeirama nova.
A chapada, de resvaladia, era um sabão.
E a manhã, claríssima, tonteava de tanta luz.
Do oitão do rancho, montado no seu cavalinho de pau, o Nilo entusiasmado, contente, batendo os pezitos no chão, que o pingo fogoso não parava quieto, não tirava os olhos do grande cenário.
Nunca vira aquilo. E estava gostando de ver. Tinha lástima de não ser homem ainda para andar lá também, e correr e se arriscar.
Num vá, a cerca deitou. Assobiaram fios de arame arrebentados, e voaram lascas de pau, cravando longe no chão como estacas.
Tropeiro, cavalo e boiada uniram-se num bolo só.
E daí um pedação, apareceram com o Ricardo de arrasto num couro, sangrando.
Quebrara-se no golpe. Mas não gemia, procurando disfarçar a dor. O guri recolheu, na esperteza campeira dos olhitos alarifes, toda a viva emoção daquele instante supremo na vida do gaúcho.
Todos estavam calados. Ele também. Não indagava nada. Olhava normais.
O índio pediu um cigarro. Tragou uma pitada, e morreu.
Esse dia o guri não brincou.
Dias depois encontraram o Nilo, deitado embaixo do mesmo umbu, bem espichado, com um cigarro apertado entre os dentes, fingindo-se de morto.
Faz de conta que numa tropeada braba levara uma virada mui feia.
Perto, branqueando ao sol, a sua tropa. Ossada limpa!
A cerca de um fio único de barbante, suspenso antes na ponta de dois pauzinhos finos, toda caída no chão.
Ao lado do aramado, morto, o bagual pangaré.


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