10 de ago de 2012

VINICIUS DE MORAES – Sua Trajetória – Parte I



                        por  Pedro Luso de Carvalho
                

        VINÍCIUS DE MORAES, cujo nome completo era Marcus Vinícius Cruz de Moraes, nasceu na Gávea, Rio de Janeiro, a 19 de outubro de 1913, e aí faleceu a 9 de julho de 1980 . Era filho de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e de D. Lídia Cruz de Moraes. Teve uma infância muito livre e despreocupada, numa chácara do avô, na Gávea, até os cinco anos; depois, na ilha do Governador; aí viveu com sua família até os quatorze anos de idade, de onde saiu para matricular-se na Escola Afrânio Peixoto, na Rua da Matriz, onde concluiu o primário; depois, estudou no Colégio Santo Inácio.

        Foi na ilha do Governador que o poeta ensaiou os seus primeiros versos, por volta dos sete anos, rabiscando quadrinhas e trovas, que os dava para suas namoradinhas. Daí a grande importância que a ilha teve em sua vida. A  professora da escola pública, Dona Zuleica Autran, lia essas produções a seu pedido; mais tarde, no ginásio, seus colegas faziam esse papel da professora Zuleica.

Pode-se dizer que era hereditária essa inclinação para a poesia; descendia de uma família de escritores: seu pai, funcionário público municipal, era poeta, e foi aconselhado por Bilac, de quem era amigo, a publicar seus versos; seu tio-avô, Moraes Filho, era poeta, folclorista e membro do grupo Garnier, tendo sido amigo de Machado de Assis.

        Na infância, Vinicius era um leitor voraz de literatura infantil e juvenil; lia de Julio Verne a Zevaco. Dois livros destacavam-se para ele: Coração, de Edmondo de Amicis, e Através do Brasil, de Bilac e Coelho Neto. Dessa fase de leitura, passou para a 'literatura de moças': Delly, Ohnet e Ardel. Na escola, tinha preferência pela leitura de antologias, o que lhe rendeu o conhecimento dos grandes poetas brasileiros e portugueses, alguns modernos, inclusive: Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Júlio Dantas.

        No Colégio Santo Inácio, depois de ter repetido um ano, em razão da aversão que tinha pela matemática, Vinicius concluiu o curso ginasial. Participava como ator em peças teatrais, escreveu uma farsa, que foi representadas por colegas, cantava no coro do colégio, tendo sido escolhido para cantar como solista de uma “Ave Maria”, durante uma missa do Galo, na igrejinha da Rua Marquês de São Vicente. Nessa fase de sua vida, era um católico fervoroso; após o terceiro ano ginasial, passou a negligenciar seus deveres religiosos – a monotonia, a reincidência dos pecados, que não desejava evitá-los, justificaria esse afastamento da Igreja.

        Com o incentivo da família e dos colegas, continuava escrevendo versos. Certo dia, resolveu procurar o poeta João Lira Filho, a quem muito admirava, para mostrar os seus trabalhos, já que se tratava de um amigo da família. Essa iniciativa, contudo, resultou numa das suas maiores decepções: o poeta Lira Filho aconselhou-o a abandonar definitivamente a literatura. Em 1929, Vinicius deixou o colégio, quando se formou, levando consigo os conhecimentos adquiridos e os muitos amigos que aí fez.

         O sentimento para a música deveu-se ao ambiente da ilha do Governador, com a exuberante paisagem e a presença do mar, e do jovem pescador – Augusto –, que lhe ensinou a apreciar as velhas valsas, que tocava na clarineta. Vinicius também ouvia em casa músicas tocadas por sua mãe, que era pianista, além de sofrer influencia da avó, que tinha grande sensibilidade musical.

        Foi no período em que já estava no fim do ginásio que passou por essas experiências, ligando-se aos compositores Paulo e Haroldo Tapajós. Com eles, formou um grupinho para tocarem nas festas de amigos. Daí para participar em composições musicais, como letrista, foi um pulo. Alcançou dois grandes sucessos: ‘Loura e Morena’ e ‘Canção da Noite’, que se tornaram conhecidas no Brasil em pouco tempo.

        Vinicius de Moraes acreditava que a sua verdadeira vocação era a medicina, mas, por influência de seus colegas de ginásio, ingressou, em 1930, da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, na qual foi colega de Jorge Amado. Aí conheceu outros colegas que também se tornariam importantes: Otávio de Faria, Hélio Viana, Américo Lacombe e San Tiago Dantas. Sua fase de iniciação literária deveu-se a esses colegas, em especial a Otávio. Vinicius familiarizou-se então com os romancistas russos; depois conheceu escritores como: Julian Green, Mauriac, Bernanos, Ibsen, Nietzsche, Kierkegaard, Pascal.

        Vamos encerrar esta primeira parte deste trabalho com um famoso poema de Vinicius de Moraes, intitulado Soneto de Separação (In Antologia Poética, Editora A Noite. Rio de Janeiro, 1953, p. 166):

                                   
                     SONETO DE SEPARAÇÃO
                                         (Vinicius de Morais)

                    

                     De repente do riso fez-se o pranto
                     Silencioso e branco como a bruma
                     E das bocas unidas fez-se a espuma
                     E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

                     De repente da calma fez-se o vento
                     Que dos olhos desfez a última chama
                     E da paixão fez-se o pressentimento
                     E do momento imóvel fez-se o drama.

                     De repente, não mais que de repente
                     Fez-se de triste o que se fez amante
                     E de sozinho o que se fez contente

                     Fez-se do amigo próximo o distante
                     Fez-se da vida uma aventura errante
                     De repente, não mais que de repente.

                                                 
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Para acessar a continuação deste trabalho, clicar em: VINICIUS DE MORAES - Sua Trajetória - Parte II



REFERÊNCIA:
PEREZ, Renard. Escritores brasileiros contemporâneos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.

                                                        
                                             *  *  *