20 de jun de 2010

LIEV TOLSTÓI – Parte II


       
                  por  Pedro Luso de Carvalho



          Ao atingir a idade de cinquenta anos, o grande escritor Liev Tolstói, que atravessava um dos períodos mais difíceis de sua vida, sem causa visível, desiste da literatura, deixando de atender às súplicas de seu amigo Turgueniev. Este, que como Tolstói era tido como o mais importante escritor russo, se inquieta e se aflige, lembra Stefan Zweig: poderia Tolstói, como Gogol, desperdiçar anos decisivos em especulações religiosas que não tem sentido algum para o mundo? Justamente Tolstói que, mais do que qualquer outro – diz Zweig -, tinha visto e provado tudo o que existe de sensual no mundo, homem da terra e a ela ligado, nunca se inclinara, até então, em momento algum de sua vida, para a metafísica. Então, por instinto de conservação, de desespero, torna-se pesquisador e filósofo.

        Na altura dos seus cinquenta anos, Tolstói teria pela frente mais trinta anos para responder as seis “questões sobre o desconhecido”, que a esse tempo ele lhe fez e escreveu, quais sejam: a) Porque vivemos? b) Qual é a causa da minha e de todas as outras existencias? c) Qual é o fim da minha e de todas as outras existencias? d) Que significa esta distinção entre o bem e o mal que encontro em mim e por que ela existe? e) Como devo viver? f) O que é a morte e como me salvar? As respostas para essas indagações estavam a frente da criação artística, e seriam a sua razão de ser; tarefa da qual não pretendia afastar-se.

        Para responder a si próprio a sua primeira questão – nessa primeira fase-, o “sentido da vida”, Tolstói distancia-se do gozo pela vida e do trabalho para, de repente, tornar-se um adepto da filosofia; então procura os mais importantes pensadores para conhecer suas opiniões e com eles aprender “a razão de ser e a finalidade da vida”. Para isso, escolhe Schopenhauer, Platão, Kant e Pascal para, por intermédio deles, entender o “sentido da vida”. Os filósofos e os sábios não deram, entretanto, a Tolstói, resposta para essa sua indagação.

        Tolstói então afasta-se dos filósofos para, nessa segunda fase, ouvir resposta a essa pergunta: “Que significação tem minha vida no tempo, na causalidade e no espaço”? Tolstói está então em busca de consolação, e, agora, espera encontrá-la no seio das religiões. Então, troca o “saber”, que não encontrou entre filósofos e sábios, pela “fé”, que passa a buscar; daí, sua súplica: “Dai-me, Senhor, uma fé e permiti que ajude os homens a encontrá-la”. Nessa época de busca, Tolstói ainda está preocupado apenas com a sua pessoa, e não com uma doutrina que vá além dela. A sua intenção é reencontrar a paz de espírito. Ele diz que procura “se salvar “ do niilismo interior e achar um sentido na insanidade da existência.

         Criado numa família de cristãos ortodoxos, e aos dezesseis anos de idade tendo deixado de rezar, comungar e de frequentar a igreja, agora a ela retorna: guarda jejum, faz peregrinações, ajoelha-se diante das imagens, discute com os bispos e, mais que tudo, estuda o Evangelho. Investigador arguto, logo percebe que as leis e os mandamentos do Evangelho não são mais observados. Percebe também que a doutrina de Cristo, como é ensinada pela Igreja Ortodoxa Russa não lhe parece ser original. Não parece ser a verdadeira doutrina de Cristo. Tolstói descobre então que interpretar o Evangelho e pregar esse Cristianismo será o seu principal trabalho, que seja visto “como nova concepção da vida e não como doutrina mística”.

        Do pesquisador -diz Zweig -, nasceu um crente, do crente um profeta, e do profeta ao fanático não há mais do que um passo. Do desespero pessoal brotou uma doutrina autoritária em embrião, uma reforma de todo o pensamento espiritual e moral e, ainda, uma nova sociologia; a pergunta primitiva de uma individualidade angustiada: “Qual é o sentido da minha vida e como devo viver?” se transformou pouco a pouco num postulado extensivo a toda a humanidade: “É assim que deveis viver”.

        O primeiro livro de doutrina cristã de Tolstói, Minha Confissão, é interditado pela censura, o segundo, Minha fé, é censurado pelo Santo Sínodo. É a ação da igreja, com sua habilidade milenar para despistar, defendendo-se de quem faz a interpretação pessoal do Evangelho. Embora respeitado pelas autoridades religiosas, Tolstói acabou sendo banido da igreja e por ela excomungado. Muito abalado, volta-se contra os fundamentos da igreja, do Estado e da ordem temporal por não te conseguido levar adiante o seu plano de “reconduzir a religião ao Cristianismo primitivo e viver unicamente segundo as fórmulas e leis da Bíblia”.

        O caminho agora tomado por Tolstói segue numa direção – como diz Zweig - “que o transforma, irresistivelmente, no inimigo mais resoluto do Estado, o anarquista e o adversário da coletividade mais apaixonado da época contemporanea. A energia, a resolução, a tenacidade, a coragem indomável, fazem-no ultrapassar os reformadores mais ardentes, como Lutero e Calvino, ou ainda, no domínio social, os anarquistas mais audaciosos, como Stirner e os de sua escola. Em breve, a civilização moderna, a sociedade do século dezenove, com todos os seus direitos e injustiças, não terá um adversário mais feroz nem mais perigoso do que o maior escritor deste tempo. Pela sua crítica da sociedade, ninguém exerceu ação mais destruidora do que Tolstói, que antes fora o expoente máximo dos criadores de sua época”.

        O grande crítico literário norte-americano, Harold Bloom, diz em sua obra O Cânone Ocidental, que “Poderíamos chamar o anseio de Tolstói mais de uma expectativa apocalíptica que um desejo religioso (...). Tolstói amava o que chamava de Deus – diz Bloom – com uma fria paixão, mais necessitada que ardente. Seu Cristo era o pregador do Sermão da Montanha e nada mais, talvez menos Deus que o próprio Tolstói. Lendo-se Tolstoi sobre religião encontramos um severo e às vezes selvagem moralista que não edifica, a menos que, como Gandhi, ponhamos a não violencia acima de todos os outros valores. Tolstoi gerou treze filhos na eposa, mas suas opiniões sobre o casamento e a família são dolorosas, e sua posição em relação à sexualidade humana é misogenica, num grau assustador. Claro, tudo isso se aplica ao Tolstói discursivo, não ao escritor de ficção, mesmo no último romance Ressurreição, ou em novelas posteriores como O Diabo e a sua famosa Sonata a Kreutzer. Tão poderoso e constante é o talento narrativo dele que as suas digressões moralizantes não disfiguram muito a sua ficção, nem a torna chata.”

        Na minha próxima postagem, continuarei ainda nesta fase da vida de Tolstói, que se inicia aos cinquenta anos de idade, quando abandona a literatura; deixo, pois, para mais adiante, a abordagem da primeira fase da vida e da obra do escritor. Para ler a primeira parte do texto, clique em LIEV TOLSTÓI – Parte III.



REFERENCIAS:
ZWIG. Stefan. Tolstói. Tradução de Lígia Autran Rodrigues Pereira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1961.
BLOOM. Harold. O Cânone Ocidental: Os Livros e a Escola do Tempo. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001.



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