14 de dez de 2012

WERNECK SODRÉ – A Música Brasileira - Parte VI (final)



por Pedro Luso de Carvalho


Nesta ultima parte de A Música Brasileira, vamos ver como surgiu a Bossa Nova, sob o enfoque de Nelson Lins de Barros, e depois, sob a ótica de Nelson Werneck Sodré, os motivos que impediram que a Bossa nova, nascida da classe média, e pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural dessa classe, não teve condições de penetração nas massas. (Nelson Werneck Sodré in Síntese de História da Cultura Brasileira, 9ª ed., Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1981.)

Nelson Lins de Barros é referido na obra de Nelson Werneck Sodré pela sua profunda análise do movimento musical no Brasil:

Foi então surgindo na geração nova da classe média - diz Nelson Lins de Barros -, uma preocupação de fazer samba de boa qualidade, utilizando o melhor espírito do samba antigo de bom gosto, com uma simplificação e mudança de acentuação no ritmo, uma harmonia mais rica, vinda por influencia do 'jazz' e dos impressionistas, uma melodia bem construída e desenvolvida. As letras tornaram-se poéticas, com maior valorização das palavras, das ideias em relação à melodia, excluindo rimas forçadas e lamentos banais. Os intérpretes perderam a tendencia à voz possante e rebuscada. Os instrumentistas procuravam a pureza do som e a sensibilidade em vez do malabarismo frio. Não se tratava de negar, destruir, superar. Tratava-se de atualizar a música brasileira ao nível do que havia de melhor no mundo inteiro, sem o que pereceria. Embora com influencias alienígenas, o movimento resultava nacionalista, desenvolvimentista.

Um problema que a Bossa nova não conseguiu resolver, apesar de todo o esforço empreendido, é mostrado por Nelson Lins de Barros:

A Bossa Nova, nascida na classe média, pretendendo ultrapassar o próprio nível cultural da classe média, não teve condições de penetração na massa. O sistema de rádio e televisão, cuja função precípua consiste em anunciar cosméticos, usa como chamariz a arte vulgar formada para a massa desprovida de cultura. Quando se dirige à classe média, evidentemente para anunciar produtos da classe média, e tem de usar e tem de usar um chamariz da classe média, prefere importar música de outros países que já tem prestígio e popularização assegurada pelo cinema americano, pois são todos – programas, produtos, música e cinema – filhos do mesmo dono. (...) Não esquecer que todos os responsáveis pelo rádio, televisão, teatro, cinema, gravadores, boites, etc.,tem a mesma visão do mundo: são todos comerciantes. Foi essa a situação que o compositor da Bossa Nova teve de enfrentar – que todo artista tem de enfrentar: ou fazer das tripas coração para manter a dignidade – tornando-se um artista de elite – ou seguir a rotina, cair na maré da promiscuidade.

No balanço que faz sobre a Bossa Nova, o negativo e o positivo, Nelson Lins de Barros destaca como sendo positivo:

(...) embora não tenha atingido as massas (...) atingiu em cheio a classe média, a alta burguesia e, muito significativamente, os meios artísticos e intelectuais; embora não tenha evitado a invasão cada vez maior da música estrangeira, rivalizou-se realmente com o que havia de melhor no movimento musical internacional, superando mesmo as vanguardas de muitos países; embora o movimento não tenha conseguido elevar o nível da música popular como um todo, conseguiu influenciá-la de algum modo.

Quanto ao balanço negativo da Bossa Nova, Nelson Lins de Barros destaca: (...) a falta de teorização, a falta de conhecimento de teoria musical, e, por último, a falta de maior número de intérpretes próprios”. Também chama a atenção para a falta de união e no individualismo dos componentes do grupo.

Para Nelson Werneck Sodré essa análise mostra, realmente, o ambiente que condicionou o aparecimento do movimento que se propunha renovar a música popular brasileira; no conjunto ressalta o caráter culturalmente desnacionalizador dos meios de massa, rádio e televisão, no que se refere à arte a que servem de veículo quase específico de divisão, a música.

Aqui encerro o trabalho que desenvolvi em seis partes, sobre a música popular no Brasil. Para acessar a primeira parte do texto, basta clicar em A Música Brasileira – 1ª Parte.


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