13 de jun de 2012

[Poesia] CECÍLIA MEIRELES – Pergunta



                        por Pedro Luso de Carvalho


CECÍLIA MEIRELES apareceu no mundo literário do nosso país no ano de 1922, com publicações nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa, no período de 1919 a 1927, nos quais escritores católicos defendiam a renovação das letras brasileiras na base do equilíbrio e do pensamento filosófico. O aparecimento da poetisa deu-se, portanto, por coincidência, na época em que eclodia o movimento modernista (1922), no qual os escritores nele envolvidos representavam uma outra tendência.

Cecília Meireles era descendente, pela linha materna, de açorianos de São Miguel. Nasceu no Rio de Janeiro, a 7 de novembro de 1901. Foram seus pais, Carlos Alberto Carvalho Meireles, funcionário do Banco do Brasil, falecido aos 26 anos de idade, três meses antes do nascimento da filha; e de Matilde Benevides, professora municipal, falecida quando Cecília tinha três anos de idade. A menina Cecília ficou sob a tutela a avó materna, Jacinta Garcia Benevides, de origem açoriana, por ter sido a única pessoa sobrevivente da família. Cecília Meireles morreu no Rio de Janeiro, no dia 9 de novembro de 1964, aos 63 anos de idade.

Darcy Damaceno escreveu um importante ensaio sobre a obra da poetisa, intitulado Poesia Sensível e do Imaginário, que foi publicado como introdução ao livro Flor de poemas, de Cecília Meireles, de cujo ensaio, de Darcy Damasceno, alguns trechos serão transcritos, como segue:

A aproximação entre Cecília Meireles e os jovens congregados em torno de Tasso da Silveira e Andrade Murici, embora não implicando compromisso de ordem doutrinária, delineava a feição espiritual de sua arte, inspirada em elevado misticismo e acentuada comunhão de juízos literários, expressa na admiração por Cruz e Souza e os poetas simbolistas.

Com a publicação de Viagem o influxo simbolista perderia em relevo externo para introduzir-se em filosofia de vida e comprometimento estético. A similitude temática e formal, que ligava Cecília Meireles e os epígonos do Simbolismo, cedeu lugar à pluralidade de motivos e à eleição de certos metros; o vocabulário típico substituiu-se por um léxico mais variado, e os preceitos espiritualistas de pensamento filosófico, tradição e universalidade vieram singularmente concretizar-se no menos ortodoxo dos trovadores.

A premiação em 1938, pela Academia Brasileira de Letras, de Viagem, significou o reconhecimento de um empenho monacal no estudo de nossa tradição literária e na assimilação dos recursos expressivos da arte verbal. Com esse livro ingressava Cecília Meireles na primeira linha dos poetas brasileiros, ao mesmo tempo que se distinguia como a única figura universalizante do movimento modernista.

A visão da natureza física não é, na poesia de Cecília Meireles, apenas pormenorizada; também panorâmica. Ademais da meticulosidade na inventariação das coisas, ocorre nela a pintura larga, policrômica, na qual se retrata um cenário de árvores, nuvens, rios, bichos e homens.

Vemos assim avivarem-se os rastros da alma alertada contra os desenganos do mundo, desenganos que se enfeixam num tópico principal: o da brevidade da vida. A insegurança do ser humano, a fragilidade das coisas, a inconstância da sorte, a idéia de que tudo é sonho são temas que, direta ou indiretamente, daquele decorrem:


tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas.


Segue o poema Pergunta, de Cecília Meireles (In Meireles, Cecília. Flor de poemas. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1972, p. 1-2, 10, 15, 30, 35, 75-76).


                                 [ESPAÇO DA POESIA]

                                       P E R G U N T A
                                                (Cecília Meireles)



                           Estes meus tristes pensamentos
vieram de estrelas desfolhadas
pela boca brusca dos ventos?


Nasceram das encruzinhadas
onde os espíritos defuntos
põem no presente horas passadas?


Originaram-se de assuntos
pelo raciocínio dispersos,
e depois na saudade juntos?


Subiram de mundos submersos
em mares, túmulos ou almas,
em música, em mármore, em versos?


Cairam das noites calmas,
dos caminhos dos luares lisos,
em que o sono abre mansas palmas?


Provêm de fatos indecisos,
acontecidos entre brumas,
na era de extintos paraísos?


Ou de algum cenário de espumas,
onde as almas deslizam frias,
sem aspirações mais nenhumas?


Ou de ardentes e inúteis dias,
com figuras alucinadas
por desejos e covardias?...


Foram as estátuas paradas
em roda da água do jardim...?
Foram as luzes apagadas?


Ou serão feitos só de mim,
estes meus tristes pensamentos
que bóiam como peixes lentos


num rio de tédio sem fim?




                                           *  *  *