17 de jun de 2014

[Conto] NELSON RODRIGUES – A sogra



– PEDRO LUSO DE CARVALHO

NELSON RODRIGUES - Nelson Falcão Rodrigues – nasceu a 23 de agosto de 1912, em Recife, e morreu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.
Nelson Rodrigues é considerado o mais importante dramaturgo brasileiro do século 20. O conflito entre o desejo e a repressão foi a base com a qual desenvolveu sua dramaturgia, que teve o seu início aos 17 anos, quando seu irmão Roberto foi assassinado.
Nas suas obras não dá tréguas ao mundo pequeno-burguês, dando realce à hipocrisia que forjou o caráter de mulheres e de homens. O próprio Nelson Rodrigues provinha de um ambiente da pequena burguesia, que lhe proporcionou, desde pequeno, um forte senso crítico.
Nelson Rodrigues não foi aceito com facilidade pelo público e pela crítica, que debochava de sua dramaturgia, e que muito contribuiu para que visse censuradas muitas de suas peças.
Em 1943, a estreia da peça Vestido de noiva no Teatro Municipal do Rio, mesmo sob intensa vaia tornou-se o marco do modernismo no teatro. Retratava as taras, a falsidade e a decadência sempre em tintas expressionistas, estética que confirmou nos folhetins.
Nelson Rodrigues foi, além de dramaturgo, autor de romance, conto e crônica; no Brasil, as suas crônicas estão entre as mais importantes do século 20.  
Segue o conto A sogra, de Nelson Rodrigues (In A vida como ela é.../Nelson Rodrigues – Rio de Janeiro: Agir, 2006, p. 20):

A SOGRA
– NELSON RODRIGUES         

Quem não gostou foi a futura sogra. Chamou o filho. Instigou-o: “Essa menina está fazendo você de gato e sapato. Isso não é papel! Onde é que nós estamos?” Ele, que adorava a noiva, que a colocava acima de tudo e de todos, cortou o debate: “Vamos mudar de assunto, sim, mamãe?” A velha, porém, era tremenda. Largou o filho com as seguintes palavras: “Está certo, não se fala mais nisso. Mas quero te dizer uma coisa: aqui há dente de coelho.” E o fato é que, sem dizer nada a ninguém, ela andava desconfiadíssima. De quem ou de que, nem ela própria saberia dizê-lo. Nesta mesma tarde, porém, recorreu a vários conhecidos, atrás de uma informação, até que descobriu um detetive particular. Chamou o homem; perguntou:
– O senhor é discreto?
– Um túmulo!
– Ótimo. Eu preciso mesmo de um túmulo. Trata-se do seguinte...
Incumbiu o sujeito de acompanhar os passos de Margô; advertiu: “Pode ser palpite meu, mas não custa apurar.” O fulano concordou, grave: “Evidente! Evidente!” Deixou-o com a super-recomendação: “Ninguém pode saber disso!” Quarenta e oito horas depois, o detetive reaparecia, de olho esgazeado. Contou, longamente, o que apurara. De vez em quando, interrompia o relatório para exprimir seu estupor: “De arder! De arder!” Assombrada, a velha balbuciou: “Eu só acredito vendo com os meus próprios olhos!” E o detetive: “Amanhã, eu mostro o homem à senhora!”
        
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EFERÊNCIA:
JULIAN, Patrick. Quinhentos e um grandes escritores. Colaboração de José Castello. Rio de Janeiro: Sextante, 209, p. 626.

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