24 de nov de 2013

[Conto] ERNEST HEMINGWAY – O Revolucionário



   
– PEDRO LUSO DE CARVALHO


ERNEST HEMINGWAY (Ernest Miller Hemingway), nasceu em Oak Park, Illinois, EUA, em 21 de Julho 1899, e morreu em Ketchum, Idaho, aos 2 de Julho 1961. Foi casado quatro vezes, e teve muitos casos amorosos. Era um dos seis filhos do médico Clarence Edmonds Hemingway (membro fervoroso da Primeira Igreja Congregacional) e de Grace Hall (cantora do coro da igreja). Ernest Hemingway pôs termo à sua vida da mesma forma que o fizera Clarence, seu pai: o suicídio.

No ano de 1923, Hemingway publicou o seu primeiro livro, The Stories and Ten Poems, numa edição de 300 exemplares; em 1924, saiu a coletânea In Our Time, com 18 contos curtos. Em 1925 publicou a sátira The Torrents of Spring. Em 1926 publicou o romance The Sun Also Rises (O sol também se levanta), em 1927, o seu segundo livro de contos, Nen Without Woman, destacando-se, entre eles, The Killers e The Undefeated, que foram considerados os melhores exemplos do conto moderno.

O reconhecimento, pela crítica literária, chegou a Hemingway com a publicação do romance A Farewell to Arms (Adeus às armas), em 1929. Os seus contos foram reunidos no livro The First Forty-Nine, em 1938. Já o romance mais longo do escritor foi publicado em 1940, cuja história se passa na Guerra Civil espanhola, For Whom the Bell Tolls (Por quem os sinos dobram). Além dessas obras, publicou: Across the River and Into the Trees (1950), Old man and the Sea (O velho e o mar), em 1952 - que lhe deu o Prêmio Pulitzer, em 1953, e o Prêmio Nobel de 1954 –, Adventures of a Young Man (1962), Islands in the Stream (1970) e The Garden of Eden (O jardim do Éden), em 1986. (In COWLEY, Malcolm. Escritores em ação. Trad. Brenno Silveira. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.)

Segue o conto, O Revolucionário, de Ernest Hemingway (In Hemingway, Ernest. Contos de Hemingway. Tradução de A. Vieira Filho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 48-49):



       O REVOLUCIONÁRIO

               (Ernest Hemingway)



Em 1919 ELE viajava pelas ferrovias da Itália, carregando um quadrado de oleado do quartel-general do partido, escrito em lápis indelével e dizendo que o camarada havia sofrido um bocado na mão dos Brancos em Budapeste e pedido aos camaradas que o ajudassem no possível. Usava o oleado em vez de passagem. Era muito tímido e bastante jovem, e os ferroviários passavam-no de uma turma para outra. Não tinha dinheiro, e eles o alimentavam por trás do balcão nos restaurantes das estações.

Ficou espantado com a Itália. Era um belo país, dizia ele. As pessoas eram todas bondosas. Estivera em muitas cidades, muito caminhara, e vira muitos quadros. Comprou reproduções de Giotto, Mesaccio e Pierro della Francesca e as carregava embrulhadas em um exemplar do 'Avanti'. Não gostou de Mantegna.

Apresentou-se em Bolonha, e eu o levei comigo até Romagna, onde precisava ver um homem. Fizeram juntos uma boa viagem. Estávamos no início de setembro, e o campo era muito agradável. Ele era um magiar, um rapaz muito agradável e muito tímido. Os homens de Horthy haviam feito certas coisas perversas com ele. Falou um pouco delas. A despeito da Hungria, acreditava completamente na revolução mundial.

– E como vai indo o movimento na Itália? - perguntou.

– Muito mal - respondi.

– Mas vai melhorar – disse ele. - Vocês têm tudo aqui. É o único país de que todos podem ter certeza. Será o ponto de partida de tudo.

Eu disse.

Em Bolonha, dissemos adeus e ele tomou o trem para Milão, de onde seguiria para Aorta e atravessaria a pé as montanhas até a Suíça. Falei com ele a respeito dos Montegnas em Milão.

– Não – disse ele, muito timidamente, não gostava de Mantegna. Escrevi-lhe indicando onde comer em Milão e os endereços dos camaradas. Agradeceu muito, mas seu pensamento já se voltava para a travessia das montanhas. Estava muito ansioso em atravessar enquanto o tempo era bom. Adorava as montanhas no outono. A última coisa que soube dele foi que os suíços o tinham na cadeia perto de Sion.



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